Zainne Lima: Fico feliz quando uma mulher negra senta para conversar comigo, sobre algo que escrevi

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por Paulo Pastore

Da dificuldade de assumir-se como escritora ao medo de ficar sem escrever. Hoje, para a poetisa e romancista Zainne Lima, a definição de felicidade passa por sentar e ouvir uma outra mulher negra “conversar comigo sobre algo que criei”. Zainne é autora do “Pequenas Ficções da Memória” (Editora Patuá) participou também das publicações coletivas: Jovem Afro e Cadernos Negros (vol 41 e vol 42) pela Quilombhoje; Raízes: Resgaste ancestral (Venas Abiertas"; Nem uma a menos (Versejar; entre outras publicações.

É perceptível o quanto para Zainne, escrever é não só uma forma de expressão, do seu fazer artístico que será apresentado para o mundo, mas é também uma processo de reflexão, de expressão ancestral, de manifestação política: “(escrever) É absolutamente uma ação política, fazer referência ao meu corpo, à minha pessoa, ao meu povo. Não posso escrever de outro lugar que não o meu, atravessado pelas minhas próprias experiências e percepções”

Apesar de confessar da sua recente dificuldade em escrever prosa, suas respostas às perguntas da Agenda da Periferia conduzem o leitor por meio da precisão de cada palavra e frase a intimidade da Zainne, do seu fazer artístico e do sentimento em relação a sua condição política de mulher negra, a memória dos seus passados e falam, principalmente, do seu talento e amor pela escrita.

Como Zainne Lima da Silva descobriu-se escritora?

 Descobri que escrevia aos 15 anos, quando terminei meu primeiro romance. As professoras do fundamental II incentivavam muito a minha escrita e me emprestavam livros para que eu fosse inspirada a produzir mais. Dessa forma, quando completei 17, ganhei um prêmio literário da Universidade São Judas. Mas me descobrir escritora verdadeiramente foi quando Quilombhoje me publicou pela primeira vez, em 2017. Só a partir daí foi que assumi essa posição de coração, sem me autossabotar.

 

Você transita com bastante facilidade entre a poesia e a prosa. Como é trafegar entre esses mundos? Tem alguma preferência de estilo?

Eu trafego entre poesia e prosa de maneira temporal, parece. Ainda não entendo muito bem o que me leva a escrever um ou outro, apenas acontece. Mas há uma diferença bastante grande entre a Zainne de agora, que escreve ambos, e a Zainne de dois, três anos atrás, que nem sabia ser possível escrever poesia. Eu prefiro, com toda certeza, a prosa. Para ler e para escrever. Apesar disso, tenho escrito mais poesia. Acho que desaprendi a escrever prosa. Está bem difícil e estou angustiada.


zainne livrosÉ recorrente o uso da primeira pessoa no que você escreve. Talvez, até mesmo por isso,  a sua primeira obra solo tem o título “Pequenas ficções da memória”. Por quê dessa escolha? É uma escolha?

O título da obra, Pequenas ficções de memória, não tem relação com o uso da primeira pessoa. O texto que abre o livro, um conto chamado "A história de Maya", é narrado na terceira pessoa, uma narradora onisciente. Há narrativas que quero que o leitor se sinta íntimo da personagem, outras que a distância é necessária para uma compreensão mais contextual. Tudo depende da intenção da escrita. O título da obra tem a ver com uma reflexão a respeito do papel da memória (ancestral, coletiva, familiar, pessoal), na construção da/s identidade/s. Eu estava numa aula de História da África, na FFLCH, pensando na importância da oralidade nas minhas lembranças infantis, pensando se era assim para todo mundo, se havia sido assim para meus quatro avós analfabetos. Foi esse raciocínio que me deu chão para construir a obra, acreditando, principalmente, que cada memória é também uma reinvenção do passado a partir de um lugar de afetividade. Qualquer que seja esse passado; qualquer que seja esse afeto.

Na publicação da USP “Teresa: revista de literatura brasileira”, ao analisar sua obra, o crítica Rafael Ireno diz que: “a autora manifesta uma imensa inquietude com a palavra, que chega, até certo ponto, a ser violenta e dilacerante.” A sua relação com o ato de escrever é mesmo marcada por essa relação?

Eu ainda não sei qual é a minha relação com o ato de escrever. Estou estudando isso. A única coisa que tenho certeza é que eu e a escrita somos amalgamadas. E que me dá pavor a ideia de um dia parar de escrever, por não poder ou por não conseguir.


Falar sobre elementos que fazem parte do que você é, por exemplo, negra e mulher, representa uma ação política, exercício do “lugar de fala”, uma necessidade…?

É absolutamente uma ação política fazer referência ao meu corpo, à minha pessoa, ao meu povo. Não posso escrever de outro lugar que não o meu, atravessado pelas minhas próprias experiências e percepções. Mesmo quando escrevo sobre algo que não me diz respeito, sou eu quem escreve. Seria mentira se eu dissesse que não. Embora haja quem diga que escreve sem que a literatura transmita algo pessoal, acho impossível que alguma palavra exista sem peso ideológico. Estão aí os estudos sócio-histórico-literários da contemporaneidade para comprovar o que digo. O que há, ainda, é um monte de críticas pautadas na branquitude, deslegitimando qualquer escrita que fuja do escopo branco, etiquetando o não-branco como panfletário. A literatura, como qualquer capital cultural, é território de disputa. Eu só ocupo um lugar que é meu por direito. 


Quando começou a escrever, esperava alcançar tanta gente, ser elogiada, admirada? Como tem sido a construção da sua carreira?

Essa pergunta faz tudo parecer muito mais sério. Quando comecei a escrever, na adolescência, eu queria a ilusão de ser rica. Hoje, fico feliz quando uma mulher negra senta e conversa comigo sobre algo que criei. Minha carreira na literatura tem sido construída como tudo em minha vida: rodeada de mulheres que vieram antes de mim (aqui, faço referência ao Florés de Baobá) e que me ensinam os caminhos das pedras. Encontro muitas parcerias por aí, como a Editora Venas Abiertas, em Minas Gerais. Muita gente acredita no que eu faço. Compra, lê, replica o que produzo, me convida para eventos, põe meu nome em cartaz.  Tenho planos e sigo trabalhando intensamente.  

fotos: arquivo pessoal


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