“Sol na Cabeça”: Da aprovação de intelectuais a ser lido na quebrada, Geovani Martins fala sobre o sucesso da sua obra de estreia

credito Magno Silvestre

 

Chico Buarque ficou “chapado”, Marcelo Rubens Paiva disse “o mais importante da literatura recente”, Milton Hatoum afirmou que “emocionaria Lima Barreto”. Todos esses - e vários outros elogios - pertencem ao “Sol na Cabeça”, livro de contos Geovani Martins, que marca a estreia do autor no mercado editorial pela Companhia das Letras. Nessa quarta-feira (25/04), a Ação Educativa, recebe o autor para um bate-papo e uma noite de autógrafo da obra.

Na entrevista para a Agenda da Periferia, ao contar sua trajetória pessoal e sua relação com a literatura, revela-se , um aparente, embate entre uma realidade social, o contexto de morador de favela, que, em teoria, não combinaria com o universo da literatura e, ao mesmo tempo, fica nítido o quanto a complexidade e a diversidade desse mundo influência e qualifica a obra de Martins. É a isso que ele se refere ao dizer que se enxerga como “parte de um movimento, porque a minha voz é nós”

Além de falar da sua trajetória, dos seu estilo e gosto literários, o autor deixa nítida sua alegria com a atenção e elogios recebidas pela sua obra de estreia, ressalta, a todo momento, que não se deixa de “enxergar a importância politica de tudo isso”, por tudo o que representa, um “escritor de favela” que lança um obra em das principais editoras do país, é traduzido internacionalmente, recebe elogios de referências da cultura. Em resenha para o jornal Estado de São Paulo, Rubens Paiva diz que "Sol na Cabeça" é fundamental por analisar uma realidade sempre falada, de um jeito qu não havia-se pensando ainda e sentencia que "(o livro) Mudará seu jeito de pensar, sua visão do todo."

Para além da “aprovação” desses nomes, o fato do livro sair do circuito de intelectuais e chegar nas quebradas, ser lido por pessoas com a mesma trajetória de vida dele que “interessa mais do que qualquer outra coisa”.

No site da Cia das Letras, diz que o seu livro é  “a voz do novo realismo” da literatura brasileira. Como é receber uma avaliação dessas do seu trabalho?

Gosto de me enxergar como parte de um movimento, um movimento maior do que qualquer autor ou livro. Quando falam sobre minha voz, penso num monte de gente, uns que já estão por aí, outros que ainda vão surgir, porque a minha voz é nós.

Por que o título “O sol na cabeça”? Dos trezes contos, você tem algum preferido?

Eu queria colocar um título quente, por conta da presença intensa do sol na maior parte do livro. A principio, imaginava alguma coisa relacionada ao mês de dezembro, quente, tenso, cheio de possibilidades logo a frente. Depois quando o Chico Buarque lançou As Caravanas, tive a ideia de colocar o título do livro o verso “A culpa deve ser do sol”. Na editora, algumas pessoas gostaram da ideia, outros nem tanto. Nesse mesmo dia, alguém sugeriu O Sol na Cabeça, foi a primeira vez que todos envolvidos no processo de edição do livro concordaram com um título. Eu particularmente tinha gostado, mas ainda estava um tanto apegado a ideia anterior. O nome foi ficando, ficando… Hoje não consigo imaginar esse livro com esse título, parece que ele esteve sempre rodando por essas histórias. Não tenho um conto preferido, mas tenho um que me diverti bastante escrevendo, e to sempre relendo um trecho ou outro, é o Roleta-Russa.

 

livro capaAlém da descrição da sua obra pela editora, Chico Buarque disse ““Fiquei chapado.”, Marcelo Rubens Paiva elegeu como “o livro mais importante da literatura recente.”. Qual a sensação de ler isso de pessoas que são referências da nossa cultura?
Com certeza ter chapado o Chico é uma das coisas que mais orgulho, nessa minha breve  carreira literária. O texto do Caetano me emocionou muito, na verdade, eu to até agora sem conseguir acreditar. Enfim, muita gente importante pra cultura brasileira falou do livro e é sempre muito gratificante ver um trabalho que levou tanto tempo, tanta energia, tanto sonho, ser reconhecido desse jeito. Para além da minha satisfação pessoal, consigo enxergar a importância politica de tudo isso. Um escritor de favela, que fala também sobre favela, sendo lido e comentado por tanta gente. Isso espalha o meu trabalho  pra vários lugares, e isso me interessa mais do que qualquer outra coisa. Quando fiz esse livro, tinha muito de medo dele ficar preso num pequeno grupo de leitores especializados em literatura contemporânea. Felizmente isso não aconteceu, o livro tá sendo bastante lido em várias favelas, quebradas, subúrbios do Brasil e a tendencia é se espalhar ainda mais. E é claro que essa “aprovação” de nomes importantes na nossa cultura, ajudou pra que isso acontecesse.

 

E, se você tivesse que avaliar ou classificar o escritor “Geovani Martins’, como definiria suas características..estilo…
Não sei se consigo me classificar, a tarefa é dura. Me vejo como um contador de histórias.

 

Conte um pouco de como iniciou a sua relação com a literatura. Conforme a sua relação com a literatura se intensificou, houve questionamentos a respeito  de um estranhamento de um jovem da favela se relacionar com esse mundo?
Minha relação com a literatura começou muito cedo. Fui alfabetizado em casa pela minha avó, lendo quadrinhos da Turma da Mônica. Depois me aproximei ainda mais dos livros quando visitei a bienal do Livro com minha mãe e meus irmãos. Quer dizer, é uma coisa muito ligada ao campo afetivo. Desde muito cedo me interesso por leitura e por escrita, não conheço uma vida antes disso e por isso não houve nenhum questionamento. Houve sim, uma preocupação em relação as possibilidades, mas ainda assim, essa preocupação  era pouca, desde o momento em que decidi que seria escritor profissional, passei acreditar realmente como uma coisa certa de acontecer num momento ou em outro.

 

Em que momento, você se sentiu um escritor “de verdade”, de quando você percebeu a importância disso para você?

Comecei a escrever alguns versos antes de completar dez anos de idade. Quer dizer, com 14 anos, já tava com uma certa experiência. Meus amigos próximos gostavam do que eu escrevia, então comecei a compartilhar também na internet, primeiro em comunidades do falecido orkut, depois em alguns blogs, as respostas a esses textos eram muito positivas, com isso, fui ganhando cada vez mais confiança. Em 2013 foi quando publiquei pela primeira vez em livro, participando da FLUP (Feira literária das periferias). Foi a maior felicidade, ver meu nome ali, minha foto, meus textos. O maior orgulho pra minha mãe, meus irmãos e irmãs, realmente um momento muito marcante. Mas foi só em 2015, quando recedi algum dinheiro por conta de umas publicações, foi que realmente acreditei que seria possível viver de literatura.

 

Quais os seus autores preferidos? E as suas obras favoritas?

Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, e toda obra de contos.
Graciliano Ramos – Vidas Secas, S. Bernardo, Memórias do Carcere.

Jorge Amado – Capitães de Areia, Seara Vermelha, Gabriela Cravo e Canela
Carlos Drummond de Andrade – Toda Poesia, Sentimento do mundo, toda obra de crônicas.
Racionais Mc’s – Nada como um dia após o outro, Sobrevivendo no Inferno
Paro por aqui que a lista é longa!

Qual a expectativa para o evento do dia 25?

To muito feliz de voltar à São Paulo. Principalmente por dessa vez, estar com uma agenda mais voltada pras periferias. A última vez que vim aqui, que foi minha primeira vez na cidade, fiquei mais pelo centro, av. paulita, etc, foi muito bom, mas sabia que voltei pro Rio sem conhecer quase nada de SP, dessa vez pretendo conhecer um pouco mais.  A expectativa pro dia 25 é trocar ideia, conhecer, ouvir, aprender alguma coisa.

 

Ainda tem um significado diferente, sair do Rio para outro estado, na condição de “atração”?

Sim, tudo tem um significado diferente. Minha vida se transformou de uma hora pra outra e ainda estou aprendendo a lidar com isso.

 

 

texto por Paulo Pastor
crédito 
da foto Magno Silveira


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