Sarau das Pretas: Mulheres que promovem o encontro de gênero, política e raça com a arte

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Um dos motes do Estéticas das Periferias 2018 foi permitir a visibilidade e o protagonismo das mulheres pretas, entre as apresentações que compuseram essa a agenda, o espetáculo “Sarau das Pretas”, no dia 30 de Agosto, na Fábrica de Cultura Cachoeirinha foi um dos pontos altos do evento.

Criado em 2016, o grupo tem como sua idealizadora Débora Garcial, produtora e artista. Ela conta que o grupo nasceu a partir do desejo político e estético de “consolidar um espaço para as artes e as pautas das mulheres negras”. As outras integrantes são: Elizandra Souza, Jô Freitas, Thata Alves e Taissol Ziggy.

Nessa entrevista, além de contar a trajetória que uniu essas cinco mulheres negras, falar sobre compreensão e proposta político-artístico do Saras das Pretas, Debora analisa como a periferia de São Paulo tem, por meio da palavra, produzindo uma intensa produção artística, que, ao mesmo tempo que promove a arte, pauta as políticas públicas.

Qual a expectativa para a apresentação no Estéticas das Periferias 2018?

No cenário cultural periférico da cidade de São Paulo, o evento Estéticas das Periferias, têm uma grande importância, por chegar à sua oitava edição, com uma programação que continua sendo construída de forma colaborativa e descentralizada. Assim visibiliza a pluralidade e a diversidade cultural desses territórios.

Desse modo, participamos deste evento com as melhores expectativas possíveis.  Ficamos muito felizes em compor a programação e realizar a abertura da Mostra Corpos em Expressão II, que trouxe fotografias de Mell Gonçalves, uma grande mulher e parceira nossa. Houve também a discotecagem da DJ Odara. Foi um evento protagonizado por mulheres, e ocupar esse espaço é sempre uma conquista para nós.

 

Como você definiria ou apresentaria o Sarau das Pretas? O que as une estética e politicamente?

Sarau das Pretas é um coletivo artístico-literário formado por mim, Débora Garcia, Elizandra Souza, Jô Freitas, Thata Alves e Taissol Ziggy. Nossa trajetória começou em março de 2016 quando fui convidada pelo SESC Pompéia para realizar a curadoria de um sarau com mulheres, devido ao Dia Internacional da Mulher. Vi nesse convite a oportunidade de fazer o recorte étnico e artístico, e assim, pautar o protagonismo de mulheres negras nas artes em suas múltiplas linguagens. Em nossas cenas e espetáculos, trazemos a palavra como eixo central, e partir dela, dialogamos com a música e com as artes cênicas.

O que nos une estética e politicamente é o objetivo de consolidar um espaço para as artes e as pautas das mulheres negras. Entendo que nosso trabalho foi validado por essas mulheres que vêm de um processo histórico de silenciamento e de invisibilidade. De uma lacuna dentro do movimento de saraus, desse espaço voltado para as mulheres negras.


Os saraus se multiplicaram, os slams crescem cada vez mais. O que mudou de quando começou esse movimento nas periferias de São Paulo para agora?

O movimento de saraus periféricos tem quase vinte anos de existência, e eu participo dele há dez anos. Por isso não tenho condições de fazer uma análise histórica desde sua gênese, mas posso pontuar algumas mudanças, observadas a partir das minhas vivências.

Os primeiros saraus de São Paulo tiveram homens na linha de frente, e as mulheres até certo ponto, ocupavam lugares secundários e não tinham um espaço acolhedor e favorável para colocar suas questões. Isso, de certa forma, contribuiu para o silenciamento dessas mulheres.

Por isso, como reflexo do empoderamento feminino, as mulheres começaram a formar seus próprios coletivos. Eu observo que, nos últimos cinco anos, houve um crescimento expressivo de coletivos artísticos protagonizados exclusivamente por mulheres e outras minorias, como os LGBTS. Ao invés de brigarmos por vez e voz em alguns espaços, nos sentimos forte o suficiente para construirmos nossos próprios espaços de arte, e vejo isso com algo extremamente relevante nesse contexto.

O crescimento dos slams também é algo a se considerar. Avalio que os saraus literários abriram espaço para uma cena cultural em torno da palavra em São Paulo. E nesse terreno já semeado, os slams conseguiram se inserir e consolidar o seu espaço. Devido ao seu formato dinâmico em torno da batalha, as possibilidades de projeção devido aos vários níveis da competição, tornou-se algo bastante atrativo, principalmente para a juventude, que também usa esse espaço para colocar suas pautas.

Outro fator, e esse a meu ver é essencial, é o engajamento politico e social desses coletivos. Para além do fazer artístico, há uma preocupação em pautar o poder público no sentido de garantir estrutura e políticas públicas para a cultura na cidade. Uma importante conquista, fruto dessa organização politica, é a Lei de Fomento a Periferia.

 

O reconhecimento da condição de mulher negra amplia os horizontes e as possibilidades artísticas ou há um certo receio da expressão artística de vocês (ou da expectativa do publico) que o Sarau das Pretas falem sobre temáticas relacionadas a essa questão?

A meu ver trazer as pautas das mulheres negras como carro chefe do Sarau das Pretas ampliam nossos horizontes, pois essa é uma pauta que, infelizmente, está longe de ser esgotada. Poder nos colocar enquanto mulheres, negras, belas, inteligentes, cidadãs e detentora de direitos é algo muito recente para nós, e para a sociedade brasileira. Vale destacar que a grande maioria das mulheres negras, não acessam esse lugar. Ainda vivenciam as opressões históricas e estruturais sem às vezes ter consciência de sua condição.

Dai a importância de trabalhos como o nosso. Talvez uma senhora muito humilde não tenha condições de acessar um livro conceitual sobre o feminismo negro, mas ela pode nos assistir, nos ouvir, se espelhar, e assim, despertar questionamentos sobre a sua condição. E isso é o que realmente faz a diferença. E quanto ao público que acompanha o nosso trabalho, creio que maioria deseja se aproximar dessa questão, seja por vivenciá-la ou para compreender melhor. É claro que estarmos nesse lugar causa receio naqueles que temem a perda de seus privilégios. Já enfrentamos situações difíceis em algumas apresentações, pelas temáticas que abordamos. Mas esse enfrentamento faz parte, eu acredito.

Penso que a nossa arte, nesse momento, tem um papel social e politico a cumprir. Espero sim que no futuro essas questões estejam superadas, para que possamos falar de pautas mais amenas. Por ora, nesse momento tão delicado do nosso país, no qual vemos o aumento do conservadorismo e ataque às minorias, não podemos e não queremos falar de outras coisas.  


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