“Rolezinho: “Uma fábula do capital, trabalhadores artistas e o Boi-Tatá

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Consciente e ativos no ideal de produzir os próprios sentidos poéticos e políticos, o grupo “Dolores - Boca Aberta”, encerra a Mostra de Artes Cênicas 2018 com o espetáculo “Rolezinho”. A apresentação acontece nessa quinta-feira, 26 de julho, a partir das 19h30.
A Agenda da Periferia conversou com Luciano Carvalho, um dos diretores da companhia. Ele explica que peça parte da apresentação de locais onde a sociedade burguesa não deseja encontrar pessoas periféricas, utilizando-se dos trabalhadores para abordar esse conflito.
O espetáculo que, além de marcar a volta do grupo utilizando um grande elenco, celebra a “petulância de um grupo de trabalhadores artistas” que desafia o neoliberalismo, ao menos na ousadia de “apresentá-lo como monstro de  uma fábula. No nosso caso o monstro neoliberal é o Boi-Tatá”.


O título da peça “Rolezinho” é uma referência ao “fenômeno” da “ida-coletiva” de jovens da periferia aos shoppings, certo? Qual o mote da peça e qual a importância de retratar esse evento?

O nosso Rolezinho tem conexão com a juventude periférica em passeios por locais onde a sociedade burguesa não a deseja. No nosso caso é um rolê pela história contada por trabalhadores artistas periféricos, uma abordagem indesejada.

 

Esse é um trabalho que o Dolores opta por voltar a utilizar um grande elenco. Qual a diferença,  como isso colabora para o espetáculo do rolezinho?

Desde A Saga do Menino Diamante: Uma Ópera Periférica não juntávamos a turma toda pra entrar em cena. O ganho é a chance de colocar um grande volume de gente para atuar junto, trabalhar com coros cênicos e ampliar as dimensões e alcance das imagens construídas. Muitas pessoas atuando também permite realizarmos a batucada como elemento estético.


No texto de apresentação, consta a seguinte definição:  “periféricos prisioneiros de um sistema fazendo festa na boca da fera”. É uma metafóra forte, poderia comentar sobre ela?

No capitalismo mundializado em sua forma neoliberal as potencias imperialistas converteram todos os países em uma grande periferia à margem das riquezas e benesses sociais. Por nos situarmos na periferia do capital e sermos reféns de um sistema que não escolhemos é que figura a imagem de prisioneiros. Somos prisioneiros de um sistema de exploração do trabalho e construção de sociedades calcado no racismo, machismo e divisões sociais perversas. A festa na boca da fera diz respeito à petulância de um grupo de trabalhadores artistas que desafia o neoliberalismo, ao menos na ousadia de apresentá-lo como monstro de  uma fábula. No nosso caso o monstro neoliberal é o Boi-Tatá.

 

Pensando em como os fenômenos dos rolezinhos acabaram, dá para dizer que os prisioneiros foram devorados ou não?

Os prisioneiros são devorados constantemente. Tornam-se ultra indivíduos. Não enxergam as pautas identitárias como pautas universais e acabam por reduzirem-se em pequenas redomas de ódio guetificado. É o completo triunfo do monstro do capital operando nas mentes, nas condutas das pessoas. Em uma cena bastante complexa apresentamos as pautas de direita e esquerda tocando-se como proximidades comportamentais. Já não importa mais qual a causa da sua bandeira de luta, o centro das questões transmutaram-se da perspectiva do reconhecimento no diferente para o afastamento completo. Vive-se a era de demarcar a diferença, de exclusão do outro, de eliminação. Soma-se a isso o aumento vertiginoso da pobreza e da miséria (em sentido material e intelectual), a violência galopante, a repressão à juventude periférica, o extermínio físico (principalmente dos jovens negros), as privatizações, supressão de direitos, golpe de estado no Brasil, prisão injusta do ex-presidente Lula, a mídia como máquina devastadora e disseminadora de mentiras, o judiciário com sua verdadeira face partidarizada. Estão dadas as bases para o fascismo.

 

“Esse mudou acordou do avesso”, dá para dizer que esse é um “mote” ou fonte de inspiração do Dolores? Usar o teatro como forma de colocar o mundo, no qual vivemos, do avesso?

Temos uma palavra de ordem: "Quando o trabalhador faz arte vira o mundo às avessas". Na sociedade capitalista a arte é desempenhada por profissionais, por gente especializada em produzir arte para consumo de outras pessoas. Se trabalhadores e trabalhadoras  ousam fazer arte, expressar o mundo que os as atravessa, de acordo com seu ponto de vista de classe social, aí temos uma contravenção. É anti sistêmico que nós, enquanto classe, produzamos nossos sentidos poéticos e políticos. Um dos elementos revolucionários está democratização completa dos meios de produção artística para todas as pessoas. Outra tarefa igualmente revolucionária é a solidariedade e o reconhecimento entre os oprimidos. a busca da unidade contra o monstro que come nossos olhos e suga a riqueza de todas as gentes.

por Paulo Pastore


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