Revolta: Artistas e historiadores tomam de assalto a cidade para denunciar o racismo e reconstruir a história

Tiago Santana/ZUMBIIDO

                                                                                                                                                                                                                                                   

 

“Na tradição africana, a arte não se distingue de guerra”. Esse é o recado do “Revolta”, cortejo-manifesto que, neste dia 12 de Maio, leva artistas, historiadores e poetas para trazer de volta a história apagada do povo negro, para denunciar o processo embranquecimento de São Paulo, uma cidade marcada por séculos de racismo institucional. A concentração rola às 18h00, ao lado da saída do Metrô Liberdade.

A Agenda da Periferia conversou com os organizadores do evento, o bloco ZUMBIIDO (Elioti Dwennimmen e Juliana Jesus) História da Disputa: Disputa da História (Caróu Oliveira e Victor Leite). Eles explicaram, em maneira conjunta, que o objetivo da manifestação é apontar como a escravidão como fator estruturante dessa cidade a partir da história dela e, também, mostrar como “seria dessa cidade se ela fosse organizada pelo povo preto”.

Para o “Zumbiido”e o “História da Disputa…”, a tradição de resistência, através da arte, chega até o povo negro hoje através como se fossem capsulas do tempo. “ A arte é para o nosso povo um instrumento de resistência, (isso) se dá pelo fato de que foi o meio que nossos antigos encontraram para manter-nos vivos e cruzar os tempos. Como capsulas.”


Por que o nome “Revolta”? O que vai rolar dia 12 de Maio?

O nome é Revolta porque é nela que acreditamos. No levante preto. Em mais um dos tantos que historicamente nosso povo protagonizou. E por razões básicas, como existir, como liberdade.

O encontro inicia às 18h na Praça Liberdade e pretende resgatar a partir da perspectiva de historiadores, poetas e artistas as memórias sobre personagens e costumes negros que foram apagados em função de interesses como crescimento e embranquecimento da cidade, por séculos de racismo institucional e pela multiculturalidade da metrópole.

 

O que significa e por que é tão importante “recontar a história”? Como a intervenção cultural colabora nesse processo?

A  História é produto da disputa pela memória. A memória é refém da disputa pela História. Assim, quem conta - e apaga - a história influencia na memória e no papel que ela possui na construção da cidade. Apagar a história e memória do povo negro em São Paulo é negar nossa participação na construção e uso da cidade, marginalizar a importância do trabalho e costumes negros. Dessa forma, resgatar a história é reafirmar nosso protagonismo e identidade.

Neste evento, obviamente, não estamos convocando nosso povo para uma guerra literal (não neste momento). Nossa intenção é trazer o olhar para esta história de luta aqui em São Paulo. Há uma poética neste nome “Re-volta”. É mais uma vez voltar. Da mesma maneira que aqui na ZUMBIIDO acreditamos que a resposta sempre está na ancestralidade, acreditamos que as respostas organizacionais que precisamos hoje estão na história de luta de nosso povo.

 

laura viana historia da disputaO cortejo-ato está sendo chamado pelo grupo ZUMBIIDO e História da Disputa: Disputa da História. Conte um pouco sobre esse dois grupos?

Bloco Preto ZUMBIIDO AFROPERCUSSIVO: É um bloco afro composto somente por pessoas pretas. Existe desde 2013 em São Paulo e não possui sede. É uma tribo afroascendente na diáspora. É a união de jovens negros em diversas áreas da produção artística e intelectual. Abstratamente, é a verbalização do levante negro ao aliar a figura mítica imortal do líder revolucionário Zumbi dos Palmares às ações inspiradas por seu propósito. Para mais informações, acesse a página:http://www.facebook.com/zumbiido

HISTÓRIA DA DISPUTA: DISPUTA DA HISTÓRIA:  é um projeto que existe desde 2015, coordenado pela historiadora Caróu Oliveira e pelo historiador Victor Leite. Por meio de encontros e conversas em espaços públicos de São Paulo, reivindicamos um lugar no debate que tem se intensificado nos últimos anos sobre o direito à cidade. Entendendo a cidade não como simples espaço de circulação voltada ao consumo em suas diversas modalidades, mas como lugar de disputa, onde a memória é moldada e a história é construída em relação à apropriação dos espaços e seus usos. Para mais informações, acesse a página:https://www.facebook.com/pg/historiadadisputa/about/?ref=page_internal

 

Voltando a tema da história, por muito tempo houve um discurso quase uníssono da rainha Isabel como “a libertadora dos escravos”. Essa imagem, que retira o protagonismo das negras e negros, ainda é predominante ou a visão em torno desse processo já é mais “crítica”?

A visão é a visão crítica e que se sustenta só porque é um fato incontestável que o 13 de maio é só um fruto caído do pé já sem gosto de um processo de luta e resistência do povo preto. É uma falácia, como nossos irmãos dizem. No Ceará, por exemplo, a gente sabe que o levante preto dos jangadeiros resultou essa “abolição” com 4 anos de antecedência, mesmo em São Paulo, a lei que acaba com a escravatura é de 14 de março, dois meses antes da determinação nacional.

Agora, é claro que “13 de Maio” e “princesa branca libertadora dos escravos” estão relacionados no imaginário coletivo. Mas é preciso compreender que isso e tantas outras coisas são histórias  apropriadas e contadas pelos brancos que, com sua propaganda de milênios, nos coloca de joelhos, nos faz jurar amor eterno e ilimitado à vida do branco à medida que excluiu a grandeza do povo africano e sua importância do imaginário da humanidade. O que deveria ter entrado para a história como a revolução preta foi apropriado pelos interesses brancos como um favor, uma dádiva.

A gente vive o sonho branco, a vida branca, a organização branca. Nossas conversas ainda são sob a visão de mundo branca, uma lógica de lucro branca, o Deus branco, as pautas brancas, a televisão branca, a novela que o branco fez e se colocou ou não gente preta em sua vitrine.

 

Além das revoltas e resistências físicas e políticas, a arte também sempre foi uma ferramenta de resistência dos negros durante o longo período de escravidão, certo? Como você vê isso e qual a “herança” dessa forma de resistência pra ti hoje?

Aqui gostamos de dizer que na tradição africana, arte não se distingue de guerra, nem de política, nem de cultura, nem da festa, nem do ser.

Acho que a razão pela qual a arte é para o nosso povo um instrumento de resistência, se dá pelo fato de que foi o meio que nossos antigos encontraram para manter-nos vivos e cruzar os tempos. Como capsulas. Sabe? É como ver como a sociedade enxerga a capoeira, o jongo (ancestral do samba), o rap, os terreiros, por exemplo.

A lógica branca vê a capoeira como arte, dança, entretenimento, atividade física. Mas é arma de guerra e guerra é outra forma de fazer política. E política, numa guerra cultural contra um povo como a que assistimos contra o povo preto, é resistência e isso é arte.

Branco faz “Jongo de Praça” porque acha que é só cantoria ou “cultura popular”. Mas Jongo é comunicação de guerra codificada de Quilombo para Quilombo, é espiritualidade e a liturgia que cabia naquele momento enquanto branco ri batendo palma na festa sem entender a demanda. Você troca o rótulo por “arte” e ele toma o veneno.  Os terreiros são nossos costumes, referencial organizacional, dimensão de respeito, comidas, idiomas etc. É a nossa cosmovisão preservada enquanto a lógica e economia branca acredita em workshop. O rap, aquele que tem compromisso com o Hip-Hop, é consciência para estar sempre alerta aos ataques bélicos e químicos que o nosso povo sofre. Dizemos às nossas crianças “saia da mira dos tiras” e fazemos dos brancos hospedeiros de nossas ideias “Seu filho que ser preto. Ah, que ironia!”. Então, a herança é essa. Compreender que o que chamam de dança, música, cantoria, poesia, culinária é nossa cápsula política, organizacional, epistemológica sendo remetida para o futuro. E isso volta para a gente como responsabilidade e devemos entender como missão o que fazemos, tentando se organizar para permanecer vivo e vencer essa guerra.

 

Uma cidade construída através da exploração do negro, uma cidade pensada para o capital não para pessoas. Como seria ou que teria em um cidade construída pós-revolta?

Nesse evento, vendo a escravidão como fator estruturante dessa cidade a partir da história dela, a gente vai ver na visão dos artistas, o que seria dessa cidade se ela fosse organizada pelo povo preto. Seria uma cidade para pessoas - Este, penso que é o primeiro ponto. Seria maior no sentido de serviço, mais comunitária, com casas ao invés de prédios. Se olharmos para os territórios que ainda são pretos - as quebradas e ocupações - vemos uma resistência autônoma nessa direção. A pergunta é: e se a cidade fosse construída segundo a epistemologia e cultura negra? Se ao invés do desenho circular e hierárquico do poder das igrejas fosse um terreiro, como seriam as praças públicas? Construir lajes de concreto revestidas de vidro por todos os lados e entupir de aparelhos de ar condicionado é tão tolo que só podia ser idéia de gente que que quer fazer acreditar que alienígenas construíram as Merkuth (pirâmides) do Khemet. Fazer da cidade um “ambiente externo” onde seus filhos não possam estar, onde você só fica se pode pagar, também.

Uma cidade pós-revolta deveria se debruçar sobre essas referências. Por isso é importante entender e valorizar a cultura e história negra, pois uma cidade pós-revolta é uma cidade anticapitalista e anti racista, é uma cidade que entende que só é cidade se é para as pessoas.

texto por Paulo Pastore

foto da capa Elioti Dwennimmen


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