“Preta de neve”: Live-teatro apresenta as aventuras de uma jovem precisa que nasceu com a cor da noite

 

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Uma rainha que desejou ter uma filha da cor da noite. A realização desse sonhos e várias outros acontecimentos são narrados na história “Preta de neve no reino encantado”. Escrito e encenado por Ivone Dias Gomes, @umaatrizpreta, a peça, que já tem três anos de estrada, vai ser toda readaptada para o formato de live-teatro. A apresentação será no dia 4 de outubro, a partir das 11hrs, no canal do YouTube: Cia Dois Ventos. O projeto tem orientação artística de Flávia Strongolli.

Voni conta da importância de realizar uma espetáculo no qual a “princesa é pretinha se orgulha disso, além de ser muito corajosa e divertida”. Ao classificar a si mesmo como uma “artivista” (artista + ativista), não abre mão de marcar o seu espaço, de AFRontar costumes, AFROntar e estereótipos a fim de construi ma imagem positiva do ser preto desde a infância.

Algumas pessoas e aliás todas elas brancas já me confrontaram dizendo que não poderia ser esse nome "Preta de Neve", pois não existe neve preta,  mas a minha intenção é de fato criar um incômodo em quem nem imagina o significado e potência que isso tem para pessoas negras

Na entrevista para Agenda da Periferia, além do convite para a exibição do espetáculo, Voni fala das suas outras atividades culturais e artísticas a  @ciadoisventos e o @coletivonjinga. Além de apresentar um pouco da sua história de mulher negra e artista.

Qual a história da “Preta de neve no reino encantado"?

Bom a sinopse da história é assim: Em um reino encantado vivia uma rainha que estava grávida de uma linda menina um dia olhando a noite escura e estrelada a rainha fez um pedido desejou que sua filha tivesse a pele linda e escura como a noite e que fosse brilhante como as estrelas, e como todo pedido de rainha é uma ordem a menina então nasceu com a pele linda e escura como a noite e brilhante como as estrelas. 

Fiz o texto pensando em um conto  que vi uma vez na tv onde a história original dizia: A rainha olhando a neve desejou que sua filha nascesse com a pele branca,  então a história de Preta de Neve nasce do conto original, tem base nele mas desconstrói tudo que já foi constituído pela branquitude com relação a contos de fadas. E aqui nossa princesa é pretinha se orgulha disso, também é muito corajosa e divertida. Eu me coloco como artivista ou seja eu milito por meio da arte, preta de neve nasceu dessa vontade de AFROntar costumes, AFROntar estereótipos e construir uma imagem positiva desse corpo preto desde a infância. Algumas pessoas e aliás todas elas brancas já me confrontaram dizendo que não poderia ser esse nome "Preta de Neve", pois não existe neve preta,  mas a minha intenção é de fato criar um incômodo em quem nem imagina o significado e potência que isso tem para pessoas negras e digo pessoas pois não falo apenas para crianças e meninas falo para todes. Como artista, criadora e idealizadora da Preta de Neve digo que ela se chama assim, sim, pois sou artista e posso dar o nome que eu quiser, e sei que isso pode inspirar diversas outras meninas, meninos e menines também.

 

171d07f0 d88a 4dff 80ab 21d8241b53a5É uma peça exclusiva para o público infantil? Ou a peça também “atende” públicos mais velhos?

Bem eu costumo dizer que é uma peça para crianças de todas as idades de 0 até 110 anos, pois todos nós temos uma criança interior que esquecemos no meio do caminho e que precisa ser resgatada, mas, é um fato que minha pesquisa para esse espetáculo é comunicar com todos os públicos, pensando que todos podem se divertir desde o neto até os avós. Pois penso que devemos levar o teatro e a arte cada vez mais como necessários a vida humana sendo eles inerentes, naturais a nós seres humanos.


Explica um pouco qual a mensagem tem no contraste de significados “preta de neve” x “branca de neve”? 

O nome já é um grande contraste e afronte, acho que uma das maiores mensagens é que podemos fazer tudo, tudo que é branco podemos fazer preto, tudo que foi construído obrigatoriamente com base na "cultura branca" podemos enegrecer, podemos construir em novos diálogos tudo empretecido para as próximas gerações. Preta de neve é uma menina que nasce de um casal Afrocentrado mas após a morte de sua mãe o pai decide se casar com uma mulher branca, porém se casar com uma pessoa preta não anula o fato dela ser racista, homofóbica e muito má, a escolha de uma atriz branca é proposital pois sempre vemos o corpo branco em posição de poder ou de salvador e nesse caso quero subverter os contos de fadas e construir novas mensagens. A madrasta representa diversos pensamentos da branquitude, como posso ser racista se eu namoro uma pessoa negra?, como diz Elisa Lucinda deixar de ser racista não é ficar com uma mulata, então existem muitos pensamentos que precisam ser desconstruídos, nosso caçador é covarde, os sete anões são sambistas e cada um de uma região do Brasil , o espelho ama moda e internet e adora uma fofoca, além disso temos funk, rap, hip hop, literatura de cordel para deixar Preta de Neve enriquecida com nossa cultura popular, a linha da história original é mantida mas aqui temos diversas composições para valorização da cultura brasileira. 



Como é fazer “teatro online”? Ainda “é teatro” ou a plataforma transforma o teatro em uma outra linguagem? 

É difícil viu ! Posso falar por mim que sou do teatro, eu amo ver teatro eu amo ser público e também amo estar no palco e amo a troca que existe entre ator e público afinal de contas o teatro só acontece se existir ator e público sem ator e sem público o teatro não acontece, ele pode acontecer sem todo o resto, sem toda estrutura mas sem ator e público não, pois é essa emoção que nos toma, é a troca o asé que existe entre quem está no palco e quem assiste que faz o teatro ser o teatro. Eu acredito que estamos desenvolvendo uma forma de nos comunicar, pois como "artistas/ profissionais da arte" no caso pois artistas todos nós somos a única diferença é que a arte na minha vida é aplicada como ganha pão como profissão mas a arte reside em todos nós, mas voltando como artistas que somos a gente sempre acha um jeito de se comunicar e de fazer arte para comunicar ou se expressar para alguém, eu também tenho assistido muita coisa, para me alimentar de arte, e vejo que nasce uma forma híbrida do fazer artístico entre o teatro e o audiovisual onde estamos criados formas de comunicação, integrando e usando a internet como nossa grande aliada.

 

Fale um pouco sobre os seus dois projetos:  @ciadoisventos e o @coletivonjinga

 Que lindeza falar de dois projetos que me consolidam como artista, como humana e como profissional a Cia. Dois Ventos é a união de duas mulheres faveladas da cidade de São Paulo eu e Priscila RIbeiro, criamos essa Cia. com objetivo de só trabalhar com mulheres nos palcos e nos bastidores tanto na iluminação, sonoplastia e todas as áreas do teatro e dessa forma integrar e dar oportunidade a mais mulheres artistas, pois somos artistas e periféricas sabemos o quanto é difícil as oportunidades que existem e que na maioria das vezes precisamos criar as oportunidades, juntas criamos os espetáculos : VIzinhas, Tropelhaçadas, Divas da Faxina e Preta de Neve no reino encantado que é nosso carro chefe, todas as peças tem pesquisa voltada a personagens, linguagem, comportamento e cultura das favelas em que nascemos, e vivemos com o objetivo de valorizar nossa cultura popular e comunicar com todos os públicos mas principalmente de onde viemos. O projeto Preta de Neve é um projeto pessoal meu, em que convidei Priscila e a Cia. Dois Ventos para realização e estamos há 3 anos nessa luta conseguindo pouca visibilidade, estar hoje aqui dando uma entrevista significa que tudo valeu a pena e que mais do que nunca sabemos que a favela vive a favela pulsa e a favela quer se ver nos palcos e na arte sim. Ja o Coletivo Preto Njinga nasceu da minha união com outros três amigos pretos, Bianca di Azuos, Barbara Jadeh e Matheus Cardim, todos também somos da periferia e nos juntamos pois como artias e negros divimos muitas angustias, tristezas, lutas, guerrilhas mas também dividimos a força ancestral que nos guia, dividmos a arte que exala de nossa pele de nossos blacks, de nossa essencia, o Njinga é um coletivo voltado a produções audivisuais, teatrais, performances pretas que visa valorizar os corpos pretos na arte e também é nossa forma de protesto e uma meneira de dizer que estamos vivos e nós fazemos arte e antes que eu me esqueça estamos em produção no Njinga do projeto audiovisual Boogie Batidão que fala sobre a história dos bailes blacks e como eles estão relacionados a resistência e sobrevivência do povo preto, que tem idealização por Matheus Cardim um dos Co Fundadores do coletivo e além disso a história é inspirada na família dele que tem uma forte ligação com os bailes.

 

Durante a quarentena, o Coletivo Njinga organizou o "Mulheres que se contam". Como foi organizar e participar desse projeto? 

Sim, foi uma das nossas maiores conquistas durante a quarentena emplacar esse projeto. O projeto Mulheres, nasce da união das mulheres do Coletivo Njinga e da vontade de produzir algo feminino e poético, Bianca Di Azuos escreveu o texto que tem uma pegada poética lírica e um apelo estético positivo ao nosso corpo que é violentado sempre seja pela:sociedade, estado ou mídia , aqui construímos uma nova utopia e dessa forma acreditamos transformar o mundo para nossos erês, nossos futuros ancestrais pretinhos. 

Juntamos isso com as nossas pesquisas acadêmicas e decidimos com base nas teorias de Angela Davis e no livro “No Meu Pescoço”, de Chimamanda Ngozi,  montar uma peça pensando no corpo feminino preto sendo construído de forma positiva  utilizando  e nos apossando do  teatro para comunicar. Costumo dizer que nasci como diretora nesse projeto onde tive uma pequena participação como atriz, foi lindo ver um quilombo feminino se formando da nossa força nessa união feminina de respeito e cuidado.  Compõe o elenco também Bárbara Jadeh e convidamos Carolina Aza  como participação especial, fizemos diversos ensaios utilizando essa nova forma de construção e comunicação durante a quarentena enfrentamos alguns desafios, descobrimos coisas novas e lindas e tivemos nossa estréia dia 9/08/2020 com um público de 60 pessoas mais ou menos na casa de cultura guaianases que é uma grande parceira e querida minha. Fizemos uma pré estréia para amigos dia 03/08/2020 e tivemos 30 pessoas presentes por uma plataforma Online, 30 pessoas a maioria negra todas dispostas a ouvir/assistir  outras 4 artistas negras, isso foi gratificante e muito significante pois nós somos público e enquanto pretos a gente quer se ver nos palcos na tv no cinema nos outdoors em todo lugar afinal nós somos a maioria dessa população.

Obrigada pelo espaço, eu mulher preta que por muitas vezes fui emudecida existo, resisto, estou fazendo arte, estou viva mesmo que o estado torça para que eu suma, me levanto todos os dias com fé nos erês e em honra a todas as mulheres que vieram antes de mim. Asé, Ivone Dias Gomes 

A construção da identidade e um processo que se da tanto pela aproximação com o outro (aquele com quem desejamos nos assemelha e que e qualificado positivamente) como pelo afastamento do outro (de quem nos julgamos diferentes e qualificamos negativamente)  Sueli Carneiro 

 


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