“Pega o Lenço e Vai”: Bloco de samba homenageia a escritora Carolina Maria de Jesus

carolina pb

Criado há nove anos, o bloco e movimento cultural “Pega o Lenço e Vai” chega em 2019 homenageando a escritora Carolina Maria de Jesus.Danilo Ramos, um dos responsáveis pelo bloco e autor da letra deste ano, explica a Agenda da Periferia que o desfile, do próximo dia 23 de fevereiro, fecha a trilogia de tributo a escritores negros que já fez referência a Lima Barreto e Solano Trindade.

Ramos relata a importância de homenagear Carolina, uma vez que, mesmo sendo traduzida internacionalmente, graças a profundidade da sua obra e capacidade de transcrever a realidade, segue desconhecida por muitas pessoas no Brasil. Fazer referência a personagens negros não é uma novidade para o bloco, aliás, o “pega o lenço e vai” é uma referência ao lenço usados pelo marinheiros negros, os quais lideraram a revolta da Chibata.

Na entrevista, respondida por Danilo Ramos,  ressalta o lugar do samba como instrumento de representação, resistência e, óbvio, de diversão da cultura e do povo negro. Após lerem a entrevista, fica o convite: a concentração tem início às 14h no Centro Cultural Dona Leonor, sede do bloco, que fica na Rua San Juan, 121. A concentração do cortejo é às 16hrs, a saída está programada para às 17hrs. . Colaboraram com a entrevista as integrantes do bloco Hosana Meira, Mabu Reis e Maria Pinheiro.

 


Como surgiu a ideia de homenagear "Carolina Maria de Jesus" e o que representa fazer um desfile sobre ela?

Na verdade a ideia surgiu há 04 anos, uma vez que o Bloco de Samba “Pega o Lenço e Vai” tem como um dos pilares que legitimam a sua existência, o de  promover espaço de formação, demonstrando a contribuição da população de origem africana, filhos da diáspora no desenvolvimento social, econômico, político do estado brasileiro. Desta forma, queríamos apresentar a contribuição no campo literário e destacar três escritores negros, cujo, a sua contribuição através da escrita pudesse demonstrar como o estado brasileiro, foi constituído de forma a não contemplar o negro dentro do seu projeto de nação. Assim, iniciamos a trilogia de escritores com Lima Barreto, “O marginal das Palavras (2017), Solano Trindade, “O poeta do Povo” e agora com “Carolina Maria de Jesus” (2019). Carolina é colocada dentro de uma constelação de escritores que a partir das suas trajetórias e experiências de vida, apresentaram um Brasil: racista, classista e que segrega as diferenças. A sua obra é atual e profunda, pois a capacidade de transcrever a realidade nas condições de uma mulher negra naquele período demonstra a sua importância.  


Qual a letra do samba?

* Carolina Maria de Jesus * (Danilão)

Vim de lá

Do interior

Das Minas Gerais

Na busca de

Uma melhor condição  

 

Cheguei em São Paulo, Cheguei

E tive o encontro

Com a Miséria

Amarguras e tristezas

De uma vida na Favela

 

Com o meu caderno pra remediar

Na caneta o refugio

Do quarto de despejo

A casa de Alvenaria

Com crônicas e poesia

Me eternizei

No meu sonho de escrever

E assim, me apresento:

__ SOU, CAROLINA!


Há quanto tempo existe o "Bloco Pega o Lenço e Vai"? Conte um pouco sobre a história do bloco.

A ideia do Bloco nasce depois de uma experiência, vivida por nós do CEDECA Sapopemba. Em 2010, a nossa ida em escolas públicas para promover o Concurso de Redação “Camélias da Liberdade” – CEAP – Centro de Articulação de Populações Marginalizadas. Este concurso chamava as escolas públicas para participar com os alunos do ensino médio a escrever uma redação sobre heróis negros. Em São Paulo, a campanha para o concurso foi chamada pelo Instituto do Negro “Padre Batista”, e o matéria didático oferecido era um livro sobre o tema: A Revolta da Chibata, um vídeo “Heróis de Todo o Mundo” – Elaborado pelo MEC (A cor da cultura) em parceria com o Canal Futura.  Porém, num total de 10 escolas municipais de Sapopemba, Zona leste de São Paulo, não houve interesse em encarar a proposta. Por diversos motivos dados. Mas o racismo é isso! Após este revés, percebemos que este material nos daria possibilidades além dos muros da escola.
carolinaE assim, inicia-se a história do Bloco no contexto do centenário da Revolta da Chibata em agosto de 2010. Neste ano, o grupo de sambistas começou a imaginar a criação de um Bloco que pudesse sair no carnaval exaltando os heróis negros esquecidos pela História, e com isso fazer valer a Lei 10.639/03. A ideia também era cantar sambas de terreiro, sem enredo, resgatando uma linhagem de samba tradicional que se fazia presente nos terreiros das escolas de samba cariocas em seus primórdios, a partir da década de 30.  O tema escolhido para o cortejo inaugural do Bloco, em 2011, foi a Revolta da Chibata, iluminando a figura do grande Almirante Negro João Cândido. No percurso de pesquisa sobre o tema, chamou a atenção do grupo de sambistas o lenço que os marinheiros usavam em volta do pescoço, com a função de limpar o rosto de graxa e pólvora, uma vez que os mesmos manuseavam tais materiais nos momentos de combate. O nome do Bloco foi escolhido pelo “Seu Ocimar”, num momento de descontração do grupo: - É isso! O pessoal “pega o lenço e vai”! O lenço no pescoço se tornou o adereço oficial do Bloco, sendo distribuído a todos os participantes momentos antes do cortejo, segundo um ritual coletivo que remonta à experiência dos marinheiros que capitanearam o levante: inicialmente, amarrando o lenço na testa, num gesto que faz referência ao cuidado de proteção do rosto realizado pelos marujos nos momentos de combate; e, posteriormente, descendo o lenço para o pescoço. A realização do Bloco envolve uma série de ações de colaboração e de participação entre o grupo de sambistas e moradores do entorno, dentre as quais destacamos: encontros para levantamento, discussão e definição do tema do Bloco, a cada ano; atividades de formação continuada, junto aos participantes e a comunidade em geral, sobre o tema – incluindo palestras, exibição de filmes, leitura e discussão de textos e outros materiais -, com mediação de professores e pesquisadores convidados e integrantes do Bloco; criação e escolha dos sambas que irão compor o cortejo pelo grupo de sambistas do projeto; gravação e compartilhamento dos sambas a cada edição, a fim de divulgar as composições junto à comunidade e outros grupos de sambistas (da cidade de São Paulo e de outros estados do país); confecção de materiais e adereços para o cortejo (cartazes e lenços); elaboração de prospectos (textos sobre o tema do Bloco e letras dos sambas) distribuídos no dia do cortejo; entre outras ações.


É uma tradição do bloco fazer referências a cultura negra?

Ao longo dos últimos sete anos, o Bloco desfilou pelas ruas da periferia de Mauá contado e cantando a história de: “João Cândido e a Revolta da Chibata” (2011); “Luiza Mahin e a Revolta dos Malês” (2012); “Luiz Gama: O Trovador da Liberdade” (2013); “Conjuração Baiana: A Popular Revolta dos Búzios” (2014); “Balaiada: a maior revolta popular do Maranhão” (2015);  “Quilombo de Palmares: a Primeira República do Brasil” (2016); “Lima Barreto: o marginal das palavras” (2017); e “Solano Trindade: o poeta popular” (2018) e agora “Carolina Maria de Jesus” (2019). Mais do que um desfile carnavalesco, o Bloco tem mostrado que o samba permanece sendo um importante agente social e político, de transformação e conscientização, que disputa o campo simbólico e afirma as potencialidades de saberes e narrativas não hegemônicas nos campos da cultura e da educação. O trabalho de pesquisa, resgate e difusão das práticas culturais do samba e da história do negro no Brasil feito pelos(as) trabalhadores(as) do Pega o Lenço e Vai é uma escola pública, cultural e política, que ensina desde e sobre uma história e modo de vida invisibilizada nos bancos das escolas e universidades. Considerando o processo de organização do Bloco, acreditamos que o referido trabalho vem contribuindo para a politização e reflexão dos participantes acerca das contradições sociais vivenciadas pelas populações negras na sociedade brasileira, a ponto de suscitar no grupo o desejo de conhecer, compreender e valorizar a história e o legado cultural e social do negro no Brasil, através do samba.


O samba-enredo da mangueira é sobre a Marielle, vocês escolherem homenagear a Carolina. Qual o significado (o qual papel cumpre) essa relação do samba-carnaval-mulheres negras-política?

O samba ele só se torna isso que consideramos samba a partir da importante contribuição histórica de referências femininas. Basta apenas darmos visibilidade a história do samba e citarmos as tias baianas: Tia Ciata, Perciliana, Carmen do Ximbuca, Maria Adamastor, Amélia Aragão como cita o livro: “As bambas do samba: Mulher e poder na roda” (2016), organizado pela professora da Universidade Federal da Bahia, Marilda Santana. A centralidade na figura masculina é a reprodução de uma sociedade que sempre invisibilizou as mulheres. A melhor maneira de reconhecer e de contribuir é: nós homens buscarmos a compreensão histórica que a mulher sempre ocupou espaços importantes nas escolas de samba e em outros seguimentos. Esta nossa experiência já é um resultado deste processo de compreensão, uma vez que ao estudarmos as revoltas, refletimos o papel da mulher em cada história contada. E o próprio papel de protagonismo que a mulher exerce dentro da organização do bloco. Hoje temos lideranças femininas de forte influência e peso nas decisões. Mas mesmo assim, precisamos avançar ainda mais sempre, pois a disparidade ainda permanece e reconhecer isso nos torna sensível à causa feminista. Carolina Maria de Jesus foi traduzida e lida em diversas línguas, e muitas pessoas ainda não ter conhecimento disso é resultado da invisibilidade causada pelo racismo e machismo. Deixar cair no esquecimento à contribuição e a memória de Carolina, é uma ação do opressor, e este modus operandi é o mesmo que quer diminuir e invisibilizar a história de luta e memória de Mariele Franco. O samba, historicamente, sempre esteve atento e se fez presente. Por isso, é importante, neste cenário, reconhecer à ousadia da “Estação Primeira de Mangueira”, citar Mariele e Luiza Mahim.

 

Como vê a relação da periferia paulistana com o carnaval? Como a periferia de São Paulo vive o carnaval?

A periferia é excluída e continuará sendo. Não produzimos a nossa vida nas periferias. Sempre somos obrigados a estarmos nos centros das cidades vendendo a nossa força de trabalho, perdendo até 05 horas de nossas vidas só no trajeto para as nossas casas. No bairro muitas vezes preservamos apenas os laços familiares. Isso é a sociabilidade do capital. No Brasil, alguns lugares fora da região sul e sudeste consegue manter o senso comunitário desta festa que já não é do povo pelo menos em São Paulo. Nós somos como algumas outras iniciativas das periferias paulistas: “um pingo no oceano”. Mas estamos na resistência, pois sabemos que é importante manifestações como esta, em prol do samba, da educação popular e da convivência comunitária.

 

Qual a expectativa de público?

Em torno de 250 e 300 pessoas. Mas na verdade não criamos expectativas. O importante e colocar o bloco na rua, cantar samba e “Pegar o Lenço” e ir, (risos).

por Paulo Pastor


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