Panorama - Arte na Periferia II: A arte forma nossa identidade, não temos o privilégio de fazer arte pela arte


64206688 2716394175102507 2106116339776094208 n

 

por Paulo Pastore


Nem todas pessoas sabem reconhecer ou ver a beleza das coisas, explica o diretor Peu Pereira. Em “Panorama - Arte na Periferia II”, Pereira fornece um ‘abrir de  olhos’ para quem ainda não conseguiu enxergar o intenso movimento artístico de “pessoas que estão transformando as próprias vidas e o entorno com suas ações de cultura, de arte e de humanidade”.


A obra - uma continuidade do “Panorama - Arte na Periferia I” - apresenta uma série de entrevistas, apresentações e reflexões sobre as experiências culturais vividas na zona sul da periferia de São Paulo, que tem reverberado pela cidade e até para fora do Brasil.

Na entrevista para a Agenda da Perifera, Peu Pereira abre espaço para os artistas e pessoas influenciadas pela arte periférica, refletirem sobre o significado para suas vidas, para a relação entre as pessoas e como isso as movimenta social. Quanto a, quase sempre recorrente relação com arte periférica e política, o diretor responde: "não fazemos arte pela arte, isso não indica uma escolha, simplesmente não temos o privilégio de fazer arte pela arte”

Qual a história do “Panorama - Arte na Periferia II”?

Essa história começa em 2006 quando descobri um programa que financiava atividades culturais de jovens em São Paulo, era o programa VAI, hoje com mais de 15 anos. Eu estava começando a conhecer de fato a cena cultural da periferia. Comecei a ir nos saraus e lembro de ter ficado encantado pelo fato de poder conversar sobre os livros que tinha lido. sempre gostei de ler, leio até hoje. Aprendi a ler com 9 anos quando entrei na escola, mas só com 16 anos comecei a ler tudo que encontrava pela frente. Eu sempre soube ver a beleza, digo isso porque hoje acho que nem todos sabe ver. E vi muita beleza naquela cena, nas pessoas e nos fazeres. pensei: preciso fazer um documentário sobre isso. O que é isso que está acontecendo? Poesia, música, arte contra a violência, contra o descaso, contra o tédio. O mote foi esse, será que sabemos que tudo isso está acontecendo em tantos lugares da zona sul? E a partir daí o Panorama - arte na periferia, revelou o que estava acontecendo na periferia para a cidade, e não se tratava de violência, mas de exemplos de vida maravilhosos. Hoje a coisa muda de figura, quase 15 anos depois, essa beleza existe e se reinventou em muitos aspectos. Mas estamos lidando com o genocídio da população preta e pobre, matam a gente como se fôssemos baratas, como se nenhum sonho sonhado por nós tivesse importância e sabe o que isso gera? Gera o ódio, a ignorância o racismo o fanatismo e tudo de pior que há em nós. É o que estamos vivendo hoje, cada um de nós somos responsáveis por tudo que está acontecendo no país, mas o brasileiro insiste em colocar a culpa no outro e seguir no "jeitinho" diário... O panorama mostrou e mostra pessoas que estão transformando as próprias vidas e o entorno com suas ações de cultura, de arte e de humanidade. Além de mostrar que o cinema que vai contar e recontar a real história pra nós é possível, mesmo com baixo orçamento. Agora imagina com muito?

 

No trailer alguma das falas dizem “é preciso assumir que a gente é um movimento” , de uma “estética” que deve ser estudada. Como essas falas dialogam com o seu documentário? Qual é o “Panorama” que você apresenta?

O filme traz artistas refletindo sobre o movimento cultural e artístico da zona sul, que é na verdade suas histórias de vida. Então o filme pensa sobre cultura de periferia, se existe ou não, sobre o que essa produção vem refletindo, sobre essa voz né, que soa através dessa produção. A partir daí o filme vem traçando um panorama de ações e reflexões sobre a produção, no sentindo filosófico: o que somos, de onde viemos e para onde vamos? No final das contas em outras palavras, o filme traz a tona um momento histórico e a perspectiva de pensar sobre movimento cultural, política, identidade, genocídio entre outras coisas, num momento em que querem que a gente não pense, num momento de ditadura, num momento tão triste da história do nosso país. Pois então pensemos e façamos.

 

O que mudou e que continua em relação ao “Arte na Periferia I”?

Hoje temos melhor capacidade para construir uma narrativa de filme documentário, além de ser um processo mais rápido e dinâmico por conta da experiência dos anos. Faz com que o trabalho seja gosto e bastante fluido. Isso é uma coisa que trato com a maior gratidão, aprender, ter a capacidade de aprender sempre, mas sobretudo de não sentir frio na barriga para fazer um documentário. Isso mudou muito em relação ao primeiro filme. Os personagens que participam do primeiro e do segundo, também senti uma mudança boa, mais calma, mais segurança, presença e vivacidade. Isso foi emocionante em vários momentos durante as gravações, o contato direto com as pessoas, o olho no olho, a relação de confiança. acho que é quando me sinto mais vivo. conexão né, como se chama. Acho difícil dizer o que estava de um jeito há uma década atrás e segue igual hoje, tudo mudou e está mudando. Mas a matança da população jovem, preta, pobre da periferia não mudou muito, continua e talvez tenha piorado.

 

Como a relação entre produção e território, movimento artístico e identidade aparece no documentário?

Essa produção, apesar de ter chegado em vários lugares do mundo, começou na zona sul de são paulo e esse será sempre o seu berço. Porque tem a ver com a qualidade de vida das pessoas, com transformar o bairro num bom lugar etc. É muito legal poder ir num sarau perto da sua casa ou num samba ou num espetáculo. É o que a classe média ou pequeno burguesia, como prefiro chamar, sempre viveu e vive, para alguns isso nem é qualidade de vida, é o básico. Então o movimento artístico aponta para as conquistas que precisamos batalhar e isso vai forjando nossa identidade, nossa cosmovisão. Estamos entendendo que ter conhecimento é uma grande arma, mas também um grande escudo.

 

Ter um discurso político ou crítico é uma preocupação sempre presente para os artistas periféricos? A questão política, às vezes, pode surgir também como um fator de “limitação” ou quase como uma “obrigação”?

Um ponto do filme documentário é que "não fazemos arte pela arte", isso não indica uma escolha, simplesmente não temos o privilégio de fazer arte pelo prazer de fazer a arte, porque estamos morrendo, temos menos dinheiro e mais doenças, você acha que vai limitar, que é nossa obrigação? É obrigação lutar por uma vida melhor, não se contentar com pouco e nem se nivelar por baixo. É isso que aos poucos e bem devagar vai acontecer, pelo menos eu espero. Pensa quando o povão, o trabalhador mesmo, o brasileiro de verdade que no fundo, sempre é copiado nos filmes, nos programa de humor, na tv etc, o "POPULAR" sabe? Quando essa pessoa que sou eu e que é você, parar de ficar falando lorotas e se revoltar de verdade com o tanto que os bancos nos roubam? Quando a gente se revoltar com essa safadeza que tem sido esse governo falho, corrupto e envolvido em assassinato? Quer dizer, sem posição a gente se torna um bando de covardes que não quer nada com nada. Imagina quando cada um de nós assumir que é escravo e começar a se revoltar com isso? Eu sonho.


Edições anteriores
Envie seu evento
Conheça nossos pontos de distribuição
Quem Somos
Entre em contato
Marca da Agenda
Expediente
                       
               Patrocínio Apoio Realização
     
 Fundação Casa  Itaú Cultural