O que é uma Educação Antirracista? Curso online e gratuito explica o porquê e o como discutir as relações raciais

 

suzane jardim foto de gabriel mendes dias
por Paulo Pastore

"O racismo existe mesmo? Negros e Brancos...Não somos todos humanos? Tenho um amigo negro, logo  não sou racista, certo?” Respostas para perguntas simples como essas - ou talvez nem assim tão simples - a definição de conceitos como “branquitude” e “letramento racial”. Apresentado pela professora e historiadora Suzane Jardim, o Curso “Diversidades - Educação Antirracismo” do Senac, discute as relações sociais e explica por que elas dizem respeito a todos nós.

Na conversa com a Agenda da Periferia, Suzane explica que o curso inicialmente era voltado para uma formação interna do Senac, mas que o resultado do projeto fez com o que o curso fosse disponibilizado, gratuitamente, para todo o público. A pesquisadora aponta que educação antirracista é necessária porque, ao longo do tempo, o Brasil adotou uma política de  “sistematicamente calar e omitir do grande público as discussões sobre relações raciais”.

Com uma navegação simples e intuitiva, dividindo os tópicos por abas, mesclado com textos e vídeos apresentados por Suzane em uma dinâmica mais próxima de uma conversa, todo o conteúdo é pensado para atrair dialogar com “não-iniciados” na temática, apesar de ter informações e conceitos muito além do ‘básico’.

“Minha formação é como professora e por isso tenho um compromisso com o ‘ser didática’, creio na educação e na consciência como etapa inicial para toda mudança. (...) Quanto maior o número de sujeitos capazes de ler as hierarquias raciais do mundo, maiores serão as possibilidades de união para o questionamento e derrubada dessas hierarquias”, explica.

O que é uma “Educação Antiracista?”

É uma educação que entende que nosso país adotou sistematicamente o projeto de calar e omitir do grande público as discussões sobre relações raciais que foram cunhadas no campo das ciências humanas, políticas e no seio do movimento negro. É tentar instruir sujeitos sobre relações raciais, não para que individualizem a questão, mas para que consigam perceber o quanto o racismo faz parte de nossa estrutura social e tenham a capacidade crítica para se colocar contra esse sistema.


O curso seria para uma formação interna no Senac e agora foi aberto para o público em geral. Quem você espera que acesse? Quem você acredita (ou queria) que participasse do curso?

Inicialmente o curso foi pensado para funcionários da instituição – professores ou não – focando em tentar trazer elementos básicos da discussão sobre questão racial que provavelmente não lhes foram ensinados em suas formações básicas, mas que atravessam a instituição de ensino e o trato entre instituição/alunos/professores/funcionários a todo momento. Com a liberação do acesso, não há restrição ou controle do público que possa acessar o material, mas creio que os acessos virão daqueles que já tem algum interesse em relação ao tema – seja pessoal, escolar, de trabalho – e querem um olhar mais amplo, didático e facilitado sobre a questão. Pessoalmente e preferencialmente, gostaria que o material fosse usado na formação de professores e na criação de conteúdos educativos para alunos da educação básica porque acredito que o espaço formativo/educativo deve visar uma educação libertária e que o antirracismo é peça fundamental nesse projeto.


69362765 2834976896515010 4174732345133236224 oA forma como o curso está montando, as divisões do tema, dá para ver que o curso tem uma grande preocupação em não falar só “para iniciados” ou “convertidos”. Por quê é importante adotar essa abordagem “mais didática”?

Bom, minha formação é como professora e por isso tenho um compromisso com o ‘ser didática’, creio na educação e na consciência como etapa inicial para toda mudança. Dentro desses pilares, tentar conversar com pessoas ‘de fora da bolha’, propondo diálogos com os ‘não iniciados’ é também uma tentativa de construir alianças para um trabalho de crítica sistêmica que precisa ser coletivo. Quanto maior o número de sujeitos capazes de ler as hierarquias raciais do mundo, maiores serão as possibilidades de união para o questionamento e derrubada dessas hierarquias. Entretanto, reforço que essa é minha escolha e compromisso profissional como educadora - os negros do mundo não têm a obrigação, a formação necessária e nem a disposição psicológica para serem didáticos o tempo todo: há boa parte dos que querem entender a questão, mas não querem ser confrontados ou levados a pensar seu papel dentro do sistema, exigindo simpatia e didatismo dos que sofrem e atacando aqueles que negam o papel de ‘professores particulares não remunerados’ como se fossem eles os responsáveis pelo  não avanço das pautas. Como eu, diversos intelectuais e professores disponibilizam seus escritos, suas falas e materiais de formação – mais acessíveis do que nunca graças a internet – o material educativo está disponível, cabe agora aos interessados irem atrás desse material, terem iniciativa sem jogar nas costas dos negros em geral essa obrigação.


De certa forma, dá para dizer que a frequência com que dizem “somos todos humanos" ou "para mim é tudo igual" em um diálogo sobre raça, o m certo sentido, é também é uma dimensão do racismo, certo?

O “somos todos humanos” é uma verdade biológica usada de modo conveniente para calar ou manter no campo do não dito toda questão racial posta em cima da mesa. É comum que quem use tenha de fato uma boa intenção ao querer explicitar que ela, em si, não diferencia e não vê demérito em uma pessoa ser não-branca, entretanto essa é uma falsa afirmação – em um mundo onde o racismo foi base para a construção do mundo moderno, a diferença racial está posta em todos os elementos do nosso cotidiano e não enxergar isso faz parte do processo histórico que naturalizou as hierarquias raciais colocando negros e indígenas na base da pirâmide, no caso brasileiro. No lugar de dizer “somos todos iguais” e “não vejo diferença” a pessoa realmente bem intencionada e que se vê como aliada da causa, pode simplesmente se dizer aliada, explicitar que entende que há uma diferenciação posta socialmente apesar de sermos de fato parte de uma só humanidade e que está disposta a questionar essa diferenciação sempre que ela dá as caras.

Já aconteceu de alguém falar contigo que “descobriu-se” vítima de racismo...ou ainda descobriu que teve atitudes racistas depois de ver aulas ou palestras suas?

Nossa, todos os dias (risos). A naturalização sistêmica do racismo como parte intrínseca do mundo moderno tem entre os principais sintomas a dificuldade de se ver como agente do racismo e a dificuldade de identificar que certas falas, acontecimentos e dificuldades foram sim fruto do racismo e não ‘azar’ ou ‘paranóia’ nas vidas negras. A tendência geral é dupla e funciona de modo diferente para cada um dos lados: entre os que cometem atitudes racistas, a lógica é a de aliviar a gravidade internamente, naturalizar o ato, se perdoar facilmente e afundar em dinâmicas psicológicas que cegam o processo de percepção da gravidade e da função dos atos individuais na manutenção das hierarquias raciais; já do outro lado, o lado dos que sofrem racismo, a tendência é a de fazer com que internalizem a questão, que sintam culpa, confusão e que mantenham o silêncio para evitarem constrangimentos e acusações como de ‘vitimismo’ ou ‘paranóia’. Durante as formações presenciais que ministro, ao apontar o problema e falar também desses processos de internalização da questão, os relatos são comuns – surgem aqueles que passam a compreender falas e questões que foram cotidianas em seus ciclos familiares e de ensino, aqueles que percebem que não houve paranoia diante de desconfortos e aqueles que dividem o quanto reproduziram sim o senso comum, foram perpetuadores do racismo sem nunca terem sido realmente questionados sobre. 

Lembro de uma formação que ministrei em uma cidade do Rio Grande do Sul, onde um rapaz branco se levantou após a oficina para contar que havia percebido que foi racista naquela semana e só percebeu ali: ele era voluntário em uma ong para crianças carentes onde a maioria delas eram negras, fez uma atividade de pintura e pediu para que todas pintassem os personagens da atividade ‘com o lápis cor de pele’, que nada mais é do que o lápis cor de rosa. Qualquer um diria que isso é senso comum, ato falho e naturalizado, uma bobagem diante de todos os males que o racismo trás, mas a fala do rapaz demonstrou que ele entendeu que há ali uma hierarquia sobre qual a cor da ‘normalidade’, a cor do ‘desejável’ e do ‘cotidianamente aceitável’. Não enxergar e não questionar essas pequenas hierarquias raciais do cotidiano é basilar para a manutenção e naturalização dos problemas maiores.


Nos últimos anos, em relação a questão racial e ao debate sobre o tema, o Brasil evoluiu, regrediu, ficou estagnado...ou nenhuma das alternativas anteriores?

Sou historiadora e não acredito num conceito de história evolutiva, ou seja, afirmar que a questão “regrediu ou evoluiu” não responde de fato – o correto é entender que a questão hoje é abordada de um modo diferente em relação ao passado graças a diversos fatores e mudanças que o passado ainda não havia disponibilizado. Comparar o que temos hoje com a escravidão ou com a segregação racial norte-americana para dizer que agora estamos bem, seria anacrônico e desonesto, por exemplo. Diria que vivemos um tempo onde, apesar de termos vitórias simbólicas e de acessos aos negros conseguindo acessar a universidade, as instituições de educação e as mídias, há também iniciativas governamentais que precarizam a vida e ferem a dignidade negra enquanto comunidade, muitas vezes se escondendo atrás de discursos que aparentam ser ‘racialmente neutros’ e que por isso mesmo não causam revolta. O debate está aberto, as pessoas estão aprendendo e querendo conversar sobre de um modo nunca antes visto, mas ainda é preciso ultrapassar a fumaça neoliberal que têm ditado esses diálogos colocando tudo no campo do debate individual, da culpabilização de sujeitos e do acesso negro aos grandes postos do capitalismo e olhar para quanto o sistema alimenta a precarização racial e produz a continuidade das estatísticas alarmantes, dos estereótipos e do extermínio vigentes.   


Edições anteriores
Envie seu evento
Conheça nossos pontos de distribuição
Quem Somos
Entre em contato
Marca da Agenda
Expediente
                       
               Patrocínio Apoio Realização
leirouanet siteagenda    logoitau siteagenda  
logoims siteagenda logoitaucultura siteagenda  
 logogovfederal siteagenda