“Mulheres Negras na Fotografia e nos Tecidos: Do anonimato a expressão da sua individualidade”

Thais Craveiro, 2019


A potencialidade da artes visuais e texteis como ferramenta de afirmação, de reconhecimento de si e de resistência das mulheres negras são algumas das questões abordadas nas atividades: "Mãos que ilustram: mulheres afro-latinas e afro-caribenhas", em comemoração da “Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha”, dia 27 de julho, no Instituto Tomie Ohtake, e da oficina “As Mulheres Negras na Fotografia e nos Tecidos”, nos dias 03 e 04 de agosto, na Kasa Ajeji.

 

A Agenda da Periferia conversou com a educadora Jordana Braz, que coordena as duas atividades. Jordana, que é pesquisadora de relações étnico-raciais na educação e práticas de mediação em arte, conta como o ato de costurar, o qual pode ser entendido como trabalho e também como arte, são não formas de expressão ou resistência, mas espaço onde é possível ver que essas mulheres existem para além do anonimato ou de generalizações impostos pelo racismo. A atividade “Mãos que ilustram…” conta a curadoria em parceria da também educadora, Luciara Ribeiro.

 

“Eu converso com as pessoas participantes e procuro instigar suas memórias relacionadas à mulheres anônimas que foram/são incríveis, mas que por múltiplos motivos tiveram suas narrativas apagadas pelo cotidiano (...) A mulher anônima evidência que a sociedade e a história oficial apagaram muitas narrativas, mas que nós enquanto indivíduos também apagamos em nossas relações, nós também temos responsabilidades nestes apagamentos enquanto indivíduos”,afirma Jordana.

 

O que é representação da mulher negra para você?
Eu prefiro representatividade da mulher negra do que representação da mulher negra. Eu dou valor quando eu percebo uma subjetividade expressada através da arte pautada em suas próprias experiências como indivíduo.

 

Combinar “representação” e “mulher negra” na mesma frase remete, quase que automaticamente, às discussões e polêmicas com muitas camadas. Por quê essa discussão é tão forte? Como você se insere ou entendeesse debate?

A discussão é forte porque não é possível se identificar com uma imagem única para representar experiências singulares de vida. E até quando a representação é feita por pessoas negras, o cuidado para não tornar um padrão é recomendável. Eu entendo esse debate baseado na subjetividade dos indivíduos. Mesmo que os corpos negros sejam estigmatizados socialmente, a maneira como cada pessoa lida é única. Eu me insiro nesse debate colocando minha experiência enquanto uma pessoa de pele preta nas relações cotidianas e expressando o que eu sinto através de experimentações nas artes têxteis e na fotografia.

 

Como será o evento “As Mulheres Negras na Fotografia e nos Tecidos”? O que você pretende despertar/passar para o público?
O evento que acontecerá na kasa Ajeji é a continuidade de uma pesquisa que eu comecei em 2018, com os estudos para a exposição Histórias Afro-Atlânticas ocorrida no Instituto Tomie Ohtake e MASP. Desde 2017, eu integro a Equipe de Ação e Pesquisa Educativa do Instituto Tomie Ohtake e na lista de artistas da exposição, eu tive um despertar quando conheci as artistas mulheres que usam as artes têxteis e a fotografia como linguagem para suas produções artísticas. Eu considero um despertar porque eu acessei minhas memórias com a costura e que estavam adormecidas. Desde o ganhar uma maquininha de costura na infância até as bonecas de pano e roupas, minha relação com a costura é pela minha avó Maria Júlia. Já adulta, eu estudei e fiz alguns trabalhos com fotografia. Então, conhecer artistas mulheres negras que lidam com linguagens que são próximas à mim me instigou a buscar mais referências. Essa pesquisa eu ampliei e compartilho com quem tem interesse em comum e de conhecer mais artistas negras fotógrafas e que utilizam a costura e bordado. A pesquisa é teórica, mas possui uma reflexão desdobrada em atividade prática. A memória da minha avó me fez pensar que ela foi anônima socialmente, mesmo sendo uma mulher incrível. Minha mãe conta que ela era muito inteligente, não alfabetizada. E eu sempre penso que se minha avó tivesse oportunidade de estudar, ela teria mais oportunidades de aprimorar seus talentos. Portanto, eu converso com as pessoas participantes e procuro instigar suas memórias relacionadas à mulheres anônimas que foram/são incríveis, mas que por múltiplos motivos tiveram suas narrativas apagadas pelo cotidiano. Esse pensamento é o disparador para a criação do que eu nomeei Costura memória, suporte que eu costuro à mão as mensagens das pessoas participantes para essas mulheres anônimas. Eu uno tecido chita costurando as mensagens escritas em um tecido de algodão, estampado com uma fotografia que eu fiz em 2015. A imagem é a silhueta feminina de uma mulher anônima. O público participa da construção desta costura memória e que ficará permanentemente na Kasa Ajeji, como registro da oficina e das memórias dessas mulheres.

 

No dia 27 de julho, você participa do evento: "Mãos que ilustram: mulheres afro-latinas e afro-caribenhas", o que aproxima a arte das mulheres afro-latinas e afro-caribenhas? Existe algum tipo de “espirito do tempo” (um zeitgeist) possível de identificar uma identidade em comum?
A aproximação escolhida para atividade é a ilustração como linguagem artística e outras aproximações poderão ser feitas da mesma maneira quando lidamos com obras de arte de um modo geral, por exemplo os aspectos formais. É perigoso pensar que quando a arte é feita por pessoas negras, irá existir outras formas de aproximações que generalize, como se desejasse uma busca por um essência em comum. A proposta da atividade no Instituto Tomie Ohtake, desenvolvida em parceria com a arte educadora, curadora e pesquisadora Luciara Ribeiro, é mostrar que no campo da ilustração também existem mulheres negras afro-latinas e afro-caribenhas produzindo a cada dia. Compartilhar com o público esse conteúdo colabora com a memória da produção de artistas mulheres negras e é importante para a visibilidade. Sobre o “espírito do tempo”, eu acredito que estamos refletindo mais sobre a diáspora africana e as consequências que ela trouxe para os indivíduos e para a formação das sociedades norteamericana, latinoamericana e caribenha. Identificar uma identidade em comum eu não sei se é possível, mas em comum a resistência diária e a possibilidade de expressar nossas subjetividades através da arte e suas múltiplas linguagens.

 

Foto 1Você acredita que a cultura e a arte negra, muitas vezes, são ‘resumidas’ ao campo da música ou retratada como sendo ‘rudimentar’ ou ‘pouco elaborada’. Como se desconstrói essa ideia?
Eu não acredito que a cultura ou a arte negra são resumidas apenas à música e tão pouco eu considero ‘rudimentar‘ ou ‘pouco elaborada’. Desde a infância, eu tenho conhecimento de quem foi Grande Otelo e todo o seu talento e contribuição para o cinema, artes cênicas e cultura brasileira. Heitor dos Prazeres não se resumiu ao campo da música, ele também era pintor. Portanto, eu nunca pensei ou tive referências que a produção artística negra se resume em campos específicos da arte, menos ainda consideradas rudimentares e pouco elaboradas. Pessoas negras produzem em todos segmentos artísticos, o que precisa é reconhecimento e visibilidade para mostrar suas produções. Eu acredito que as pessoas que consideram menor e pouco elaborada precisam rever os seus motivos pessoais para tal pensamento. O acesso à informação sobre artistas negrxs que produzem arte em diferentes linguagens artísticas é necessário para ampliar o referencial artístico do público, reconfigurando ideias rudimentares e pouco elaborada sobre o que é cultura e arte negra.

 

O que significa ou quem é a “mulher anônima”?
Existem muitas pessoas que conhecemos pela vida e que por vários motivos, deixamos passar sem dar a atenção devida. Pode ser alguém da família, colega da época da escola, alguém que trabalha conosco ou até mesmo alguém que nos pergunta algo pela rua. Eu percebo que muitas dessas pessoas são mulheres. Os estereótipos que são agregados ao instituto feminino, muito ligado ao instinto materno, possui a paciência e o sacrifício de se anular em prol dos outros colaboram para que o descaso com suas histórias de vida sejam naturalizadas no cotidiano. E este tratamento gera um apagamento no cotidiano e tem a questão racial como decisiva. Ser uma mulher “forte” e "guerreira" são qualidades utilizadas para se referir às mulheres negras pela resistência diária. No entanto, frases como "você sabe como resolver isso, se vira!" ou "você é forte e sabe se cuidar" são respostas prontas que muitas mulheres negras escutam ao longo da vida, como se suas subjetividades não precisassem ser escutadas. Existe uma falta de empatia quando são as subjetividades de mulheres negras. E eu percebo na fala de muitas pessoas que o tempo cobra essa falta de empatia em escutar e prestar atenção. Eu já ouvi de uma mulher branca que só adulta foi se questionar os motivos de não interferir nos bullyings que uma garota negra, na época da escola, sofria por parte dos outros colegas brancos. A mulher anônima que eu evoco são essas diversas meninas e mulheres que estão arquivadas em nossas memórias com pesar da consciência de "eu poderia ter feito mais por você" ou "eu não fui legal o suficiente e eu tenho consciência disso, me desculpe". A mulher anônima evidência que a sociedade e a história oficial apagaram muitas narrativas, mas que nós enquanto indivíduos também apagamos em nossas relações, nós também temos responsabilidades nestes apagamentos enquanto indivíduos.

Conte um pouco da sua trajetória e das suas descobertas enquanto pesquisadora da arte negra. O que mais te surpreendeu ou te encantou?
Minha trajetória pessoal parte da minha origem mineira por parte materna, uma família negra católica. Meus avós chegaram à cidade de Cachoeira Paulista(SP), no final dos anos 50. Por parte paterna, eu sei que meus avós são da cidade de Cunha (SP). Eu nasci lá em Cachoeira Paulista também, em 1986 e eu fui batizada em Baependi (MG), na igreja de Nhá Chica. Minha mãe não podia engravidar e minha avó Maria Júlia, devota de Nhá Chica, fez uma promessa que resultou em 2 filhos para minha mãe. Por isso, eu fui batizada lá em Baependi. Minha relação com o interior de São Paulo e com o Sul de Minas Gerais são memórias das férias, pois mesmo nascendo lá, eu nunca residi. Meu pai já trabalhava em São Paulo nos anos 80 e minha família morou no Piraporinha, bairro da zona sul de SP, até o início dos anos 90, época em que nos mudamos e nos estabelecemos até hoje na cidade de Caieiras, região metropolitana de São Paulo. Minha trajetória profissional começa em 2008, quando eu decidi seguir meus instintos e desistir de seguir a área da saúde. Fiz um curso básico de fotografia e fui fazer cursinho popular, até que entrei em 2010 na graduação em Letras pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. Em 2014, eu tive a oportunidade de ingressar na área de educativos através da 31ª Bienal de São Paulo e foi transformador para mim, eu tive que superar minha timidez para lidar com o público. Em 2017, eu inicio a especialização em Gestão de Projetos Culturais no CELACC- USP. Em 2018, a experiência de ter atuado como arte educadora na exposição Histórias Afro-Atlânticas me fez renascer como indivíduo e profissional. A cada pesquisa que eu fazia para a exposição, eu sentia a união das minhas trajetórias pessoais e profissionais e a necessidade de compartilhar o conteúdo para além da exposição. Eu senti a extrema importância e a responsabilidade de resgatar a memória de pessoas incríveis e que não tiveram suas histórias respeitadas. Memórias de familiares, figuras históricas e artistas que não tiveram seus reconhecimentos em vida. O que fica para mim como lição a ser praticada diariamente, seja como alguém que pesquisa arte e indivíduo: valorizar pessoas negras que estão entre nós e incentivar e respeitar suas autorias sobre suas próprias narrativas. Assim, a história que estamos construindo agora possuirá narrativas justas protagonizadas por pessoas negras.

 


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