Mato Cheio: “Vai nascer a liberdade dos injustiçados”

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Falasse da existência de um túnel secreto usados por escravos para fugir da região do  bairro Jabaquara, na capital paulista, à cidade de Santos. São 80 km de distância. “Mato Cheio” narra essa história, repleta de mitos e de ficção, com o intuito de demonstrar como esses, e outros mitos, marcam, uma intensa disputa de narrativa e (não) reconhecimento da existência e resistência do povo negro no Brasil.

Jhonny Salaberg, um dos integrantes do coletivo “Carcaça de Poéticas Negras”, que apresenta o espetáculo, conta que as integrantes e os integrantes do coletivo, decidiram teatralizar as histórias e contos que não encontravam nos livros de história, mas sempre ouviam dos mais velhos. “Descobrimos o mito sobre a fuga de escravizados no século XIX pelo o túnel secreto que liga Jabaquara à Santos e a potente narrativa ficcional que isso provoca”, explica.

Para o coletivo, a falta de registros históricos, não é uma prova da não-existência da fuga, a forma como narra-se a história no Brasil, dando pouco destaque aos episódios de protagonismo e de luta da população negra, torna ainda mais necessário que histórias como essas sejam contadas. Afinal, como diz Picita, uma das personagens principais, “‘eu juro pelo amor que eu tenho as estrelas, vai nascer a liberdade dos injustiçados"

Mato Cheio é uma ficção, uma “narrativa mítica” ou um relato “histórico”?

“Mato Cheio” é a junção dos três, a dramaturgia nasce a partir de depoimentos de moradores de Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, sobre a migração em massa de nordestinos para o bairro. Junto disso, descobrimos o mito sobre a fuga de escravizados no século XIX pelo o túnel secreto que liga Jabaquara à Santos e a potente narrativa ficcional que isso provoca, pois cada morador conta a lenda de sua maneira fazendo com que os acontecimentos se misturem e provoquem o encontro entre ficção e verdade, partindo também de experiências sobre migração dos artistas criadores. Nesse sentido, chamamos o espetáculo de obra poética-performática-narrativa, partindo de um registro teatral épico sobre a invocação da palavra.

 

É certo dizer que a forma como se “esconde” a história dos quilombos, de resistência e afirmação política, dá quase uma ideia de como se espaços não tivesse existido?

Sim, a história nada mais é que narrativa oral e ela é sempre contada  pelo vencedor da batalha. Não precisa de muito pra saber que nós, pessoas pretas, não fomos os vencedores  e que estamos sujeitos e acreditar que sempre perderemos. Não há nenhum documento oficial registrado sobre a fuga dos escravizados em Jabaquara, todo o material foi queimado  e a historicidade se perdeu, portanto, é possível que não acreditemos ou que a lenda perca sua força e resistência, se constituindo como “boato” ou ficção. O nosso documento vivo é a oralidade, o que os mais velhos contam aos mais novos. Mesmo com a dúvida de sua existência, optamos por arriscar e mergulhar neste mito para talvez criar outra perspectiva sobre o fato e poder também criar em cima, colocar nossa visão enquanto coletivo de teatro negro sobre a situação, relacionando ao mesmo tempo o nosso cotidiano.

 

Conte um pouco da história que inspirou a peça?

Contasse a lenda que no começo do século XIX, escravizados fugitivos se encontravam na casa do Sítio da Ressaca - construção bandeirista de 1719 que mais tarde virou quilombo de passagem - para se reunirem, descansar, se proteger dos capitães do mato e combinar trechos de fuga para a cidade de Santos, sempre de madrugada. Com isso, veio a ideia de misturar dramaturgia ficcional com documental e se aprofundar nas história de fuga, miração e sonhos dos artistas criadores do espetáculo. Então, os personagens que contam a história bebem muito do temperamento e história de vida de seus intérpretes, criando um fio que liga a personagem com o ator ou atriz. Na ficção, a personagem que está fugindo é vista de três perspectivas diferentes e é narrada por outra personagem chamada Picita, ser misterioso - mas real, não ficcional -  que costura os acontecimentos da história e constrói o fio condutor da dramaturgia. Isso tudo foi pano pra manga para que a ideia dramatúrgica surgisse a escolha de caminhos se estabelecesse, mesmo com muitas pistas apontando para outros lugares.

 

O que significa para você (ou para o coletivo) a frase: ‘"Eu juro pelo amor que eu tenho as estrelas, vai nascer a liberdade dos injustiçados"? Como “Mato Cheio” ajuda a cumprir essa promessa?54521233 676946322775483 6550365527775117312 n

Essa frase está na boca da personagem Picita e cumpre um papel de materializar uma profecia, ainda que poética, sobre o tomar posse de estados de poder e condições mínimas sobre a dignidade humana. O espetáculo existe como denúncia a uma barbaridade social em relação às pessoas pretas e diz que novos tempos estão por vir, a reintegração dos injustiçados pela história e pelas mãos brancas e monoteístas.  Picita tem muitas certezas e a palavra “juro” lhe é muito cara, ela é a útero da dramaturgia, da onde sai toda a narrativa e irradia todos os acontecimentos.

 

Quem é Picita?

A personagem Picita existe de carne e osso, é uma mulher negra, idosa, periférica, moradora do distrito Cidade Ademar, zona sul de São Paulo. Chama-se Dirce, mas todos a conhece como Picita. Ela é uma sonhadora de olhos feitos, um ser que tem uma carga espiritual inexplicável e bota a sanidade humana em dúvida constante. No processo de pesquisa do espetáculo, conversamos com Picita e logo nas primeiras palavras percebemos que ela é uma divindade de outro planeta, dito pelas suas próprias palavras e pelas percepções aleatórias. Ela diz que sempre conversou o fogo e ele é o seu porta voz sobre o mundo, ou seja, tudo o que acontece no mundo ela sabe através do fogo. Viu o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, casos catastrófico no país e a missão que diz ter feito: plantar 12 árvores em diferentes lugares. Quando a dramaturgia começou a se amarrar, percebemos que a presença dessa mulher enquanto poética traria uma camada lírica para o trabalho que desse a leveza e mistério necessário para se contar a história. Ela é a narradora em não linearidade da dramaturgia, evocando todas as palavras de um grito humano e persistente. Ela diz ser o navio negreiro, ela diz ser a beira do mundo, ela diz que conhece Deus, que foi a Marte quatro vezes e que a cor do planeta é cor de poesia. Picita é uma mulher incrível, porém marginalizada pelo sistema excludente que cada vez mais a empurra para debaixo do tapete. Mora numa casa mal ajambrada, sem saneamento básico e assistência social. Há poucos dias soubemos que sua casa pegou fogo e que se encontra sem moradia, beirando o meio fio de um esquecimento perverso pelo estado - isso nos inclui também, enquanto parte de uma sociedade - e de um apagamento cultural e histórico. Dada como louca, a matamos todos os dias.

 

No texto de apresentação da peça consta as frases “caminha em busca de si e do lugar que ocupa” e uma referência de como o corpo negro é visto. Em certa medida, é possível dizer que o corpo negro, no mundo construído pelo e para o corpo branco, está sempre fora de lugar e em transição, como se estivesse em busca de um quilombo?

Sim, a dramaturgia discorre sobre trânsitos e fuga de um corpo negro em perigo, como se o corpo negro nunca chegasse ao seu destino e tivesse que fugir pelas beiras e becos. As personagens querem voltar aos seus lugares de origem e não necessariamente um quilombo, pois quilombo é uma palavra inventada na época da escravatura sobre a necessidade de juntar-se, aquilombar-se, entre pessoas pretas para se protegerem dos capitães do mato. Portanto, o ato de fugir de onde está e voltar para o lugar de origem nada mais é do que materializar o pertencimento de si mesmo, voltar ao que era, ser dono de si e do seu destino, seja ele qual for. Na dramaturgia a personagem que mais revela a necessidade de chegar a algum lugar é a personagem Gasta-Botas, uma figura que está sempre andando, mas que nunca chega. Leva consigo todos os seus pertences e jura que tem rumo, mas se perde em seu próprio caminho e é obrigada a mapear tudo de novo. Durante as entrevistas com migrantes nordestinos, percebemos que o maior motivo de deslocamento é a felicidade. As pessoas (migrantes) saem de seu lugar de origem para buscar felicidade - o que não aconteceu e não acontece com os escravizados durante toda a época da escravatura - e muitas vezes essa felicidade se chama: casa e comida. E se o lugar de destino não lhes oferecem isso, há uma sensação de tempo parado e incompletude, como se o corpo tivesse perdido e precisasse se achar.

 

Fale um pouco sobre a história do grupo “Carcaça de Poéticas Negras”?

Fundada em 2016, Carcaça de Poéticas Negras é um coletivo artístico formado por: Isamara Castilho, Jhonny Salaberg, Patrick Carvalho e Priscila Guedes, artistas negrxs, periféricxs, homossexuais e não binárixs, oriundxs de duas escolas de teatro do Estado de São Paulo: Escola Livre de Teatro e Escola de Arte Dramática. Desenvolve em seus trabalhos a Trilogia da Fuga, uma pesquisa em cima da ideia de fuga e o genocídio da população jovem, negra e periférica, constituindo a pesquisa, montagem e circulação de três obras teatrais. Contêm em seu repertório, até o momento presente, os espetáculos: “Mato Cheio”, direção de Ivy Souza e “Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã”, direção de Naruna costa. Ambos espetáculos publicados pela Editora Cobogó (RJ), movimentos da Trilogia da Fuga, respectivamente, e escritos pelo ator, dramaturgo e membro do grupo Jhonny Salaberg. O último premiado e indicado a diversos prêmios de teatro da cidade e do país, como: Prêmio APCA, Aplauso Brasil, blog do Miguel Arcanjo Prado da UOL, Folha de São Paulo e Festival Melanina Acentuada (Salvador/Bahia). O coletivo foi contemplado duas vezes pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) com a montagem e circulação do espetáculo “MATO CHEIO” pelas periferias da zona sul de São Paulo, além da IV Mostra de Dramaturgia em pequenos formatos cênicos do Centro Cultural São Paulo que oportunizou a montagem e temporada do espetáculo “Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã”.

por Paulo Pastore



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