“Macumba Jam”: Cia Treme Terra convida o público a interagir e improvisar

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Um nome que provoca, denuncia, busca ressignificar sentidos e que, na opinião de alguns programadores culturais poderia ser mudado para ‘atrair mais gente’. O Macumba Jam, da Cia Treme Terra, é uma das apresentações que compõe a Mostra de Artes Cênicas Estéticas das Periferias 2018. O espetáculo acontece no dia 23, às 20 hrs, na sede da Ação Educativa. 


A Agenda da Periferia conversou com João Nascimento, diretor da Cia. Ele explica que o Macumba Jam não é um espetáculo, mas sim uma Jam Session, que proporciona um encontro de artistas, pessoas comuns, poetas e transeuntes que podem se propor a improvisar partindo do instrumento macumba.


Em um momento que a denúncia de agressões e perseguições as religiões de matrizes africanas, Nascimento ressalta a importância de perceber a raiz desses ataques que está no fato de fazerem, praticarem, aquilo que os grupos de poder classificam como “coisa de preto”

Por que o nome “Macumba Jam?

Sempre nos fazem essa pergunta, e acho importante que continuem nos perguntando. Programadores culturais já até nos orientaram à mudar nome para atrair mais gente. Lógico que escolhemos de propósito, sabendo do constrangimento que gera nas pessoas uma "simples palavra", mexe com os padrões, com o racismo cultural introgetado na sociedade, nas pessoas. Macumba é uma espécie de reco-reco, um instrumento de percussão de origem africana construído com madeira, tocado com uma vareta, produz atrito em sua superfície gerando um timbre peculiar, uma frequência sonora na região dos agudos. Devido a sua ligação com as manifestações religiosas de origem africana, a definição da palavra Macumba também foi deturpada ganhando uma conotação pejorativa, geralmente associada a aspéctos negativos da cultura negra, assim como a expressão "magia negra". Com o propósito de positivar e resignificar a palavra Macumba, o termo foi escolhido para intitular a atividade que será aberta ao público para as improvisações e experimentações em torno da cultura brasileira de matriz africana.


João Nascimento divulgacaoA ideia é causar um incômodo? Fazer uma provocação?
Sim, o nome também tem a função de provocar, bem como, despertar reflexões sobre a subjetividade do racismo na sociedade brasileira, mecanismos simbólicos enraizados no cerne da sociedade, onde culturalmente "aprendemos" que tudo que está associado ao negro "é ruim" e/ou possui "menos valia". Por exemplo, quantas orquestras de tambores nós temos na cidade? Qual é o investimento do estado para a manutenção das "orquestras de tambores" e/ou espaços de cultura negra? Em contramão, vimos um orçamento exorbitante destinado as orquestras sinfônicas do estado (me refiro por exemplo a OSESP), exorbitante quando comparado com os valores destinados a cultura popular, cultura negra e periférica. Exorbitante quando comparado com os valores destinados aos Pontos de Cultura, patrimônios materiais e imateriais que precisam de recursos para continuarem vivos. Aí eu pergunto, quanto recebe um maestro da OSESP? Quem define esses parâmetros e valores? Vivemos um histórico colonialista, é cultural, um desequilíbrio de valorização entre uma prática eurocentrica e uma prática de matriz africana. Quantas vezes você entrou no teatro municipal de São Paulo e assistiu um espetáculo de arte negra? Quantos balé negro, de repertório negro, que possui a dança negra como linguagem, formados por negros e negras, recebem aporte financeiro continuo do estado? Nenhum! Adotar o nome MACUMBA para a nossa JAM, tem o sentido de auto-afirmação em um momento em que estamos assistindo cotidianamente nos noticiários, bem como, presencialmente em nossas comunidades, uma enorme violência contra os terreiros de candomblé, um ataque que cada dia mais escancara na nossa frente uma tentativa de extermínio das nossas tradições, crenças e hábitos. Então, passamos a entender que somos alvos, não apenas porque temos perfil negro, cabelo crespo, mas porque fazemos e praticamos coisa de preto, e isso incomoda, incomoda os pentecostais, incomoda as religiões hegemônicas, incomoda as instituições ideologicamente eurocentradas, incomoda o poder hegemônico branco, incomoda a hegemonia cultural que possuem tradições racistas.

 

A interatividade é uma das marcas do Macumba Jam. Como o público reage? As pessoas tão acostumadas a espetáculos que usam desse recurso ou demorar para entender a metodologia?  

Nunca sabemos a reação do público para essa atividade de improvisação e experimentações em dança e música. Podemos dizer que já realizamos outras diversas vezes, e é sempre uma surpresa para nós. A interação com o público é um convite, mas o acaso e o imprevisível não nos permite saber qual será a reação pós-convite. Não se trata de um espetáculo, se trata de uma JAM SESSION, um encontro de artistas, pessoas comuns, poetas e transeuntes que podem se propor a improvisar partindo de um tema inicial que o próprio nome MACUMBA já sugere (palavra que também remete ao ambiente dos terreiros, aos espaços mitológicos dos orixás, a cultura afro-brasileira e etc). Já fizemos muitas vezes o Macumba JAM onde rolou um êxtase do público, ambientes totalmente livre para a improvisação, de contato, de interação, de troca, de disponibilidade e confiança coletiva. O lema é brincar, é se permitir a sentir, a estar presente, se desprender do julgamento. Já aconteceu também do público demorar para entender que não é um espetáculo, um público tímido que as vezes é pego despreparado, e também foi muito bacana porque estaremos lá com parte do elenco da cia treme terra e geralmente rolam desenhos coreográficos e sonoridades inusitadas, que algumas pessoas gostam de ficar alí apenas assistindo. Lidar com imprevisível é também uma das características presentes em algumas manifestações da cultura negra, com por exemplo o samba de roda, a roda de capoeira, o jongo e etc.

 

Como a “mitologia dos orixás” e os ritmos brasileiros oriundos da “diáspora africana” são explorados na apresentação?

Nada é previsível, nada é premeditado. Os estímulos podem ser diversos, os caminhos são infinitos, inúmeras possibilidades, vai depender da energia e disposição das pessoas presentes na atividade. A música ao vivo contribui muito como bússola, como condução, como guia sonoro, norte rítmico, mas que também pode se alimentar dos estímulos corporais dançantes. Sabemos que a porta de entrada é EXÚ e na saída, geralmente fechamos com Oxalá como na tradição dos Xirês, mas isso também não é uma regra, é apenas um esboço. A estrutura da JAM terá como base o repertório da Cia Treme Terra, desde as músicas trabalhadas nos espetáculos "Terreiro Urbano", "Pele Negra, Máscaras Brancas", "ANONIMATO", bem como experimentações em torno da dança negra, experimentações inspiradas nos arquétipos de cada orixá. Vale ressaltar também que a idéia não é imprimir um único estilo de dança nessa atividade, para não inibir pessoas que não são profissionais das artes do corpo, e também quem sabe receber pessoas de outros estilos e técnicas corporais. Nessa atividade, as crianças são sempre bem vindas, geralmente elas tem muito a nos ensinar em uma atividade como essa, elas são desprendidas e acabam se permitindo mais que os adultos.

 

A intolerância religiosa e o preconceito em relação as religiões de matrizes africanas sempre existiu, mas, ao menos aparentemente, é um debate que tem se popularizado. Como você vê essa discussão e como o espetáculo “Macumba Jam” pode ser inserido ou colaborar nesse debate?

Acho que respondi um pouco sobre isso na primeira pergunta. Mas, primeiramente devo corrigir novamente que o MACUMBA JAM não é espetáculo, é uma roda de improvisação e experimentações acerca da cultura de matriz africana. MACUMBA JAM é uma atividade artística voltada para todos os públicos. Mesmo sabendo que nós somos alvos para as religiões hegemônicas, somos "demonizados" por seus seguidores, principalmente por diversas linhas pentecostais. O convite é aberto para pessoas dos mais diversos seguimentos religiosos. Nosso propósito não é criar nenhum embate, mas talvez despertar uma reflexão sobre o racismo introgetado na cultura da sociedade brasileira. MACUMBA JAM busca trabalhar no plano do simbólico, sensibilizando pessoas, tocando corações e provocando reflexões com intuito de quebrar paradigmas sobre ideologias enraizadas no preconceito cultural, racial e religioso. Não temos a pretenção de racionalizar o debate ao plano intelectual formal, talvez o Macumba Jam prefere agir no campo da experiência, da vivência.  talvez isso possa fortalecer a auto estima das pessoas que possuem vergonha de dizer que são "macumbeiras", fortalecer a auto-estima de pessoas que preferem dizer que são espíritas por terem vergonha de dizer que são candomblecistas e/ou umbandistas.

 

Conte um pouco da história da CIA TREME TERRA.

Nascido no Morro do Querosene e atualmente atuante no bairro Rio Pequeno, há 12 anos, a Cia Treme Terra vem desenvolvendo um trabalho na periferia da zona oeste de São Paulo, contribuindo para a descentralização da produção artística na cidade. Durante todo este período, a Cia vem fomentando atividades de formação nas linguagens de dança, música e capoeira, buscando promover a transdisciplinaridade e constituir um espaço de discussão, troca e pesquisa acerca da Cultura Negra.

Treme Terra possui produziu os seguintes espetáculos: Cultura de Resistência (http://www.culturaderesistencia.org.br/); Terreiro Urbano (https://www.terreirourbano.org.br/); Pele Negra, Máscaras Brancas (https://www.youtube.com/watch?v=5Gn3KbQ_X8w&t=3s); Anonimato - Orikís Aos Mitos Pessoais Desaparecidos (https://www.youtube.com/watch?v=eHCsWj6DjHc).

por Paulo Pastore


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