"Kondon": Um olhar sob a força e expressividade dos Balés da Guiné

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É quase automático quando se lê ou ouve a palavra “balé”, pensar em um moça branca, de coque, magra, aparentemente frágil, executando movimentos "delicados". Se isso não acontece, provavelmente você já tenha tido a sorte de assistir ou estar em um balé que não seja esse nos moldes clássicos eurocentristas. Independente de qual seja a sua concepção, “Kondon”, da Cia Fankama Obi, é espetáculo de dança que merece entrar na sua agenda no próximo dia 19 de abril. Com certeza, quem sabe da força e expressividade dos Balés da Guiné, fonte de inspiração do grupo, ou que tenha a curiosidade de conhecer outros mundos desse universo da dança, não perderá essa apresentação.


A Agenda da Periferia conversou com Paula da Paz, integrante do coletivo e produtora do espetáculo. Ela explica que “Kondon” significa  "amanhecer/nascer do sol", e está relacionado com o “momento de recolha e nova semeadura” do grupo, que apesar de ser um grupo novo, se propõe a debater e exercitar conhecimentos milenares e tradicionais das culturas coletivas como quilombos e aldeias.

Paula reforça o trabalho pesquisa, de busca pelo conhecimento e compreensão do balé africano, salientando que não tal esforço vai para além do trabalho artístico, sendo também um processo de resistência e reafirmação desse gênero. Ela também fala da expectativa com a reação do público, de ser uma oportunidade para troca entre o grupo e as pessoas, com as visões e reações delas.

Apresentação será no dia 19 de abril, às 20 hrs, no prédio da Ação Educativa, no centro de São Paulo. Confirma mais informações aqui



Qual a história e mensagem da apresentação “Kondon”?

Em tudo buscamos compartilhar uma  mensagem, a começar pela escolha do nome da Cia...Fankama Obi - Fankama: significa forte na língua Malinke e Obi: semente sagrada indispensável nos processos de feitura (iniciação no candomblé), por representar a partilha e a união e aceitação da complexidade como caminho de paz. Kodon significa "amanhecer/nascer do sol" e escolhemos este nome pois o grupo na verdade nasce de um rompimento de outro processo o que nos forçou a um momento de recolha e nova semeadura para então voltar a nascer voltar a brilhar.

Kodon representa pra gente este novo momento, o ciclo da vida que sem ressentimento segue sempre em frente, assim como o sol que insiste em nascer todos os dias. Tratamos disso mostrando o dia dia africano e seus rituais, de colheita, pesca, festividades dentre outros.

 

E a expectativa para a apresentação dentro da Mostra de Artes Cênicas?

Nossas expectativas são muitas, mas acreditamos obter neste dia o que mais precisamos no momento. Desejamos muito mais deste espetáculo do que temos hoje e entendemos que o público tem muito a dizer sobre o que ele tem pra ser e por isso o colocamos no mundo para que o olhar do povo nos direcione um tanto. Temos no grupo quem impulssione para além sempre e também quem deposite a leveza do acreditar no que somos e construimos até aqui e isso ajuda a equilibrar. Mas esperamos que as pessoas cheguem pra ver e contribuam com suas miradas.

Esperamos a troca, é nossa maior expectativa agora.

 

Quais as características ou “estilos” do balé do Oeste Africano, dos  Balés da Guiné?

O Oeste Africano é um gigante histórico, e as divisões que conhecemos hoje foram traçadas pelo colonizador, por isso tudo se assemelha quando se trata da música e da dança daquele lugar. Os Balés do Oeste Africano e os Balés da Guiné Conacri são a mesma coisa, mas não só.

Os Balés da Guiné são conhecidos em todo mundo e sua grande característica é a complexidade de ritmos e movimentos, todos eles fortes, rápidos e muito expressivos. Além das técnicas ancestrais das linguagens teatrais e circenses. Porém não tem como dizer menos que isso das escolas de Sabar do Senegal e também dos músicos e dançarinos de toda região (que um dia foi o Império Manden) que se destacam mundialmente hoje na cena da dança e da música africana. O que chamamos hoje de Mali guarda costumes milenares daquele lugar, e isso acontece em outros países também. É de uma pluralidade imensa, aqui muito comum por sermos um povo com diversas raízes africanas, mas cada canto com sua peculiaridade. Mas é importante não deixar de saber que o que está dividido hoje um dia foi uma coisa só com muitos povos, etnias e línguas distintas.

 

cia4Como se dá a criação do encontro da pesquisa da história do balé africano com outros estilos ou gêneros de dança que a cia tem contato ou experimenta?

Esta é uma pesquisa difícil de realizar aqui do Brasil, pois temos pouco acesso a livros didáticos, por exemplo, que explique os ritmos. Então, estamos um pouco atrelados ainda a pesquisa isolada do movimento e mesmo isso ainda é raro. Temos aqui poucos Guineanos como referência e temos que pagar pra poder ter este conhecimento, sendo ele ainda raso tanto pela barreira do idioma quanto pelas dificeis condições que eles vivem aqui. Eles precisam sobreviver mas o acolhimento do poder público destes mestres e mestras que vivem aqui se quer existe. E se conseguimos algum recurso financeiro não dá pra pagar tempo suficiente para um pesquisa mais profunda, e eles ou fazem assim ou correm o risco de passar sérias dificuldades de moradia por exemplo. Seja como for, com o pouco que conseguimos com as aulas presenciais ou vídeo aulas, buscamos traduzir minimamente o que foi aprendido utilizando os arranjos e convenções da maneira mais fiel possível, mas costumamos dizer que se trata de uma releitura, por considerar a dificuldade e riqueza de detalhes que deixamos passar a olho ou ouvido nús. Neste espetáculo em específico buscamos não mesclar com outras danças, mas a memória corporal do Afro Brasileiro está presente e por mais que busquemos limpar, imagino não ser possível sem de fato viver alguns anos na África e beber da fonte diretamente. Então a produção se dá através de todo e qualquer bocado de vivência que já tivemos com os mestres que já passaram por aqui e os que vivem aqui, juntos aos conhecimentos de teatro e circo que trazemos de outros processos.

 

Existe uma concepção eurocêntrica do que é balé? Como a Cia Fankama Obi enxerga e age frente a isso?

De onde consigo enxergar e pode ser uma mirada ingênua, mas não, não vejo uma concepção eurocêntrica do que é Balé. Sabemos que os movimentos são engrandecidos e até estilizados desde quando saem das aldeias até o momento de compor o palco, mas são cenas que buscam representar o dia dia africano e se utilizam de muitas linguagens artísticas para tal, são espetáculos muitas vezes participativos exigindo do público um outro olhar.  Sabemos que é bem difícil tanto pra nós Latino Americanos quanto para os Africanos escaparem desta maneira de ver o mundo, mas buscamos ser o mais coletivo possível o que deixa o processo um pouco mais lento porém mais condizente com a nossa cultura e com a cultura africana. Vejo o balé em vários processos brasileiros como as quadrilhas juninas ou desfile de escolas de samba ou de blocos como Ilê Ayê e é este o conceito de balé que compreendo estar pesquisando também com a dança do Oeste da África. 

 

Conte um pouco sobre a história do grupo.

O Grupo é como uma bahia alimentada e banhada por vertentes de rios diferentes. Compartilhamos de conhecimentos vários, e isso contribui muitíssimo para o que o caracteriza majoritariamente que é o processo coletivo. Como havia dito, surgimos da decisão de rompimento, ou seja, de um processo de transformação e aprendizado e buscamos colocar em prática tudo o que foi aprendido inclusive a sinceridade de saber que muito ainda falta aprender. Pra toda a vida será possível estudar esta linguagem e também exercitar os processos de grupo e ainda assim morreremos sem saber tudo. A história do grupo é recente, temos pouco mais de um ano de existência, mas tratamos de debater e exercitar conhecimentos milenares e tradicionais das culturas coletivas como quilombos e aldeias.

 

texto por Paulo Monteiro
créditos 
das fotos: Gunnar Vargas


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