Ilú Obá De Min: “Mulheres que dançam como se fosse para guerra e cantam como se fosse a última cantiga”

 

ilú oba

 

Com dois desfiles programados, o Ilú Obá De Min é um potente exemplo de que carnaval não é “só festa” e de que São Paulo deixou de ser ponto de saída e pode ser de chegada para quem gosta dessa festa. Com mote “Grandeza Das Mulheres Quilombolas, o bloco conta com 340 mulheres, é um dos principais atrações do carnaval na capital paulista, já tendo sido eleito como o melhor em votações populares.

A Agenda da Periferia conversou com Elisabeth Belisário, percussionista e uma das organizadoras do Ilú.  Na entrevista, ela aponta que a referência às quilombolas surge em um contexto que os espaços de vivência do povo negro são alvo de interesses políticos e econômicos que negam o significado histórico dessas terras.

É fácil de sentir em cada palavra, em cada frase da respostas a mesma força que se sente-se ao ouvir os toques ritmados dos tambores, os passos coreografados e as vestimentas das mulheres durante o desfile: “Ver muitas mulheres juntas tocando seus instrumento com tanta força, a vida parece que tem mais sentido”.

O primeiro desfile acontece na sexta-feira (09/02), às 19 hrs, com concentração na Praça da República, e o segundo no domingo, às 14 hrs, na Alameda Eduardo Prado. Além do convite para as apresentações, Elisabeth fala sobre a concepção política do Ilú, de como o grupo compreende o carnaval e da importância de ser um espaço de resistência.

Qual a expectativa para os dois desfiles do Ilu Obá de Min desse ano?

Esperamos reunir todas as nossas forças para realizar um cortejo digno para as nossas mais velhas e mais novas Quilombolas, pois é disse que se trata o Tema desse ano O Ybi - Grandeza Das Mulheres Quilombolas. Reverenciar as mulheres negras tao silenciadas a séculos nesse país. Dar o direito de fala e de protagonismo a elas . E Ilú Obá De Min Educação - Cultura e Arte Negra fará isso nos dois dias de sua saída e sempre.



Por que a referência as mulheres quilombolas?

Nossas Quilombolas clamam por direitos, o futuro de toda comunidade está em jogo nesse momento, de perde as suas intitulações e ainda usam de violências contra os Quilombolas, Sabemos que esse povo são os cuidadores da terra e que utilizam a terra para procriar e alimentar toda família. A força das mulheres quilombolas servem para nos fortalecer e não desistirmos das nossas lutas e dos nossos direitos como mulheres negras Reunir 340 mulheres que fazem parte do Ilú Obá hoje é reunir um exército com muita consciência das lutas que virão pela frente e as que já estão estabelecidas por esse novo governo que insiste em nos calar

 

Qual a mensagem planejam/querem despertar no público?

A mensagem é de luta e que não podemos nos calar diante de tanta violências contra o povo negro, contra a juventude negras, contra as quilombolas negras e indígenas, e que juntas podemos mover montanhas. Não nos calaram jamais, já foi esse tempo, somos livres e temos organizações para virar o jogo. Usaremos das estratégicas das nossas ancestrais vindo de muito longe um outro saber. Um saber não eurocêntrico e sim do afrocentrismo.

Fotografia Rogerio CavalheiroO Ilu se transformou em um dos maiores blocos de São Paulo, do mesmo tamanho dos desfiles puxados por artista famosos, já chegou a ser eleito como o melhor bloco do carnaval. O que representa esse reconhecimento?

Representa trabalho de muitas mulheres que acreditaram e acreditam na força dessa união que é movida por muitas mulheres como Sosso Parma, Mazé Cintra , Mafalda Pequenino, Baby Amorim, Cris Blue, Cris Gomes, Roberta Viana, Nega Duda, Wanda Martins. Silvana Santos, Nanci Saran e as 300 mulheres que entoam seus tambores, dançam como se fosse para guerra e cantam como se fosse a ultima cantiga. Todos os anos também falamos de temas que recontam a nossa historia real , não essa mentirosa que muitas delas estão nos livros didáticos. Historias que só diminui o povo negro, historias que começa a partir do Navio Negreiro. Não nossa historia não começa nos Navios Negreiros , nossa historia se trata do começo da humanidade toda, de riquezas incalculáveis em todo sentido da vida.Por esse motivo também se tornamos referencia de Cultura e Educação, é isso atraem muito admiradoras(os), o nosso trabalho é também social. Realizamos nossa arte negra no centro de São Paulo, lidamos com quem esta a deriva, no anonimato, saudamos elas (es) , aliais ensaiamos nos espaços onde elas(es) moram infelizmente. E creio que ver muitas mulheres juntas tocando seus instrumento com tanta forca,a vida parece que tem mais sentido. Somos geradoras de seres humanos, vinhemos ao mundo para gerar e cuidar e é disso que se trata os 13 anos de vida do Ilú Obá De Min.



Em uma entrevista, você disse que o Ilu faz um “carnaval teatralizado”. Quais as características desse carnaval e por que a ideia de levar essa experiência para a apresentação?

O Teatro Negro tem reverencias incríveis, sou do teatro também, lá aprendi a criar cenas, momentos históricos e dentro do Ilú Obá participam atrizes e atores negros, durante os ensaios do bloco as cenas surgiam como dada a nós naquele exato momento. Irá ter uma cena da Orixá Nanã, feita pela Juliana Cintra, a cena é criação do homem pela modelagem e forca africana, terá outro momento com a atriz mineira Cida Bau do Quilombo Bau em Minas Gerias contando sua historia e outra novidades que só indo assistir.Com tantas joias negras dentro do Ilú Obá , porque não teatralizar e dramatizar as nossas historias que faz muito sentido e traz outros modos de saberes para nos mesmo!


Nos últimos anos, tem sido bem recorrente a discussão em torno do “ressurgimento” ou “crescimento” do Carnaval de Rua em São Paulo. De que forma você enxerga esse debate?

Alem de discutir querem se manifestar por direitos iguais. As grandes gestações de mais 500 blocos em São Paulo não vêm somente para fazer a folia, os blocos querem expressar seus diretos como fazedores de cultura, querem fazer denuncias contra qualquer tipo de discriminação, denuncias politicas das gestões que deviam nos apoiar. Ocupar os espaços públicos é direto de cada cidadã e cidadão. Os blocos tomaram força e inclusive se organizaram para ter um dialogo com a nova gestão da prefeitura, que querem nos silenciar  nos deixando fora da manifestação mais populosas da face da terra.Ganhamos na organização e no dialogo, mas se não houvesse acordo sairíamos mesmo assim,porque precisamos ter politicas publicas para levar nossa arte para as ruas,sabemos a importância de ocuparmos os espaços públicos. Ocupar os  é um exercício de cidadania e da verdadeira democracia. Quando estamos na rua a nossa arte se torna Arte Publica, é para todos sem distinção de cor, raça ou credo!

texto por Paulo Pastore

fotos: 
Fernando Eduardo (home)
Lineu Ko (primeira foto)
Rogério Carvalho (segunda foto)


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