Gota d’água (negra): “Sequestro” de um ícone da cultura branca


gota
O acréscimo do adjetivo, “negra” ao nome da peça “Gota d’água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, tem a capacidade de, ao mesmo tempo, em que preserva a crítica social e qualidade textual, acrescentar a dimensão do debate e do racismo antinegro, bem como de explorar e representar um olhar que escapa da dimensão do padrão do corpo branco.

A Agenda da Periferia conversou com Salloma Salomão Jovino, educador e artista público, sobre o trabalho de Gota d’água (preta), dirigido e idealizado por Jé Oliveira. Para ele, a formação de um elenco composto exclusivamente por pessoas negras opera “um sequestro de um ícone da cultura branca”, a qual construiu e formou uma tradição teatral que trás o corpo branco como “corpo modelo”, ideal para a representação, enquanto vê o corpo negro como folclórico, visto a partir de um lugar racializado.

“O teatro, tal como conhecemos, vem de uma tradição e formação europeia. Devido a isso parece natural ou cultural que os dramaturgos pressuponha que os corpos adequados para a representação teatral seja os corpos de pessoas brancas”, salienta. Isso explica o porquê uma peça, ambientada em um espaço majoritariamente composto por pessoas negras, seja representado, com tanta naturalidade,  unicamente por pessoas brancas.


Ao se referir ao sucesso de público da peça, tanto na temporada no itaú cultural e agora no Centro Cultural São Paulo, Jovino é enfático ao pontuar que o sucesso, de fato, é a existência em si da peça, a capacidade que todo o grupo conseguiu de reunir e apresentar essa nova montagem.

Quanto a aceitação dos espectadores e da crítica, ele acredita que a repercussão positiva é fruto de um processo, o qual ganhou bastante intensidade na última década,  de produção e emergência de grupos teatrais negros e periféricos. “Há uma mudança significativa de um cultural teatral vindo da parte ‘externa da cidade’, parte desse público que lotou espaços nobre como a ‘Sala Itaú’ é resultado do trabalho desse grupos afro-periféricos”.

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Gota D’água é a transposição musical da Medeia grega para os tempos atuais. Na tragédia, Medeia é uma feiticeira poderosa que se apaixona por Jasão e foge com ele, dando-lhe dois filhos. Mais tarde ele a abandona para casar com a filha de Creonte, rei de Corinto. Como vingança Medeia provoca a morte da noiva e mata as duas crianças. Em Gota d’água preta, Medeia é Joana, mulher madura prestes a ser despejada junto com os dois filhos. Jasão, compromissado com outra que lhe garantirá o futuro, continua jovem, é um sambista que desponta para o sucesso com a composição e gravação de uma canção chamada Gota D’água. Todo o enredo transcorre agora na Vila do meio dia.


Texto: Chico Buarque e Paulo Pontes – direção geral, concepção e idealização do projeto: Jé Oliveira – elenco: Jé Oliveira, Rodrigo Mercadante, Aysha Nascimento, Dani Nega, Marina Esteves, Ícaro Rodrigues e Mateus Sousa – cantora convidada: Juçara Marçal – músico convidado: Salloma Salomão


De 08 até 24 de março no Centro Cultural São Paulo.
Sextas e sábados às 20h e domingos às 19h.
R$30 inteira | R$15 meia.

 

por Paulo Pastore
fotos Evandro Macedo


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