“Falar de dançar, dançando”, Diversidança trás o discurso da dança para a Mostra de Arte Cênicas

 

Stefany Famulak

O processo de “renovação” e “aparecimento” de novos autores e linguagens da cultura de periferia, também passa - e não teria como ser diferente - pelo desenvolvimento da dança. Um dos principais grupos de dança periférica, o Diversidança apresenta no dia 30 de maio, dentro da programação da Mostra de Arte Cênicas, o “Manifesto para outros manifestos”.

Participar da Mostra, para Rodrigo Cândido, diretor da Cia, é uma oportunidade do grupo, que atua principalmente na zona sul da cidade de São Paulo, levar o seu trabalho para outros públicos. O nome do espetáculo é, explica, uma forma de aprofundar temas explorados em espetáculos anteriores, bem como fazer um convite para que o público e outros grupos de dança se movimentam para manifestar “memórias, singularidades, inquietações, lutas…”.

Além do tema do espetáculo, Cândido conta um pouco da história do Diversidança, das opções e concepções artísticas, bem como discute os caminhos e vitórias que os grupos de dança periférico tem percorrido e conquistado.

“Manifesto para outros manifestos” é um título metalinguistico? Por que dar esse nome para o espetáculo?

Essa intervenção é um desdobramento de um espetáculo anterior chamado Por que Danço? Manifesto Poético. Quando sentimos a necessidade de aprofundar ainda mais a obra, surge Manifesto para outros Manifestos. Esse nome se deu, por que a intervenção busca diálogo, motricidade, empatia com aqueles que vislumbram o trabalho... Encontramos nessa intervenção, a possibilidade de falar de dança, dançando. Encontramos nele um canal para manifestar as nossas memórias, singularidades, inquietações, lutas, conquistas e desafios que pudessem dialogar com a classe artística da dança, mas também com qualquer pessoa. Nosso desejo é instigar novos manifestos, em outras pessoas, a partir do nosso discurso, da nossa fala.

 

Qual a expectativa para a apresentação na Mostra de Artes Cênicas 2018?

A Mostra já é um evento consolidado na cidade de São Paulo, integrar programações como essa, potencializa nosso trabalho, além de deslocar nosso trabalho para a região central, já que nosso trabalho é focado na zona sul da cidade e portanto, alcançar novos públicos.

 

2017 11 11 Stefany Famulak 16A literatura, as saraus, slam’s e toda cena musical são algumas das expressões artísticas que tem tido bastante “efervescência” nos últimos tempos nas periferias. Qual o lugar da dança nessa dinâmica cultural na periferia?

Todos os movimentos tem com muita luta ganhando espaços na cena artística e a dança não poderia estar por fora. Borbulham núcleos de dança por todas as periferias da cidade, que tem pesquisa e estéticas diversas, plurais e com rico teor em pesquisa coreográfica e dramatúrgica. É claro, que muitas questões precisam melhorar, muitas oportunidades precisam ser ofertadas, a cultura periférica ainda é muito desvalorizada. Por isso, a Cia Diversidança resolveu criar um trabalho que pudesse indagar as pessoas sobre esse fazer artístico, ampliando a visão de mundo das pessoas sobre a arte e sobre a dança, entendo que sociedade civil, opinião e gestão pública, precisam estar unidas para avanços de politicas públicas para a cidade. A dança periférica vem caminhando, ganhando destaque paulatinamente no cenário da cidade, um avanço disso são as premiações do Prêmio Denilto Gomes de Dança da Cooperativa Paulista de Dança que em 2017, premiou o II Encontro Mulheres Negras na Dança por Projeto em Dança da Naves Gris, a intervenção urbana Mané Boneco do Grupo Zumb.Boys e até a Cia Diversidança em Revelação de Ação Continuada em Dança. Ainda em 2017, o APCA - Associação Paulista de Críticos de Artes premiaram o VIII Circuito Vozes do Corpo, organizado pela Cia Sansacroma com destaque de Projeto, Programa, Difusão e Memória. Esses são dados significativos para as estéticas periféricas, negras, marginalizadas, descentralizadas. Os artistas periféricos tem muita garra, por que mesmo sem investimento, muitas vezes realizamos diversas ações pela cidade, o Diversidança por exemplo realiza já algum tempo a Mostra de Repertório Coreográfico e recentemente o Dança nas Bordas, que difundem e fomentam dança na zona sul, abrindo e propondo diálogos entre artistas e comunidade local.

 

Na descrição do grupo, coloca-se que a Cia Diversidança tem como intuito “reverberar (na dança) as indagações singulares e coletivas”. Quais são essas indagações?

Todo trabalho da Cia Diversidança, surge por meio de indagações. Quando criamos o Manifesto para outros Manifestos, nosso desejo era aproximar a sociedade sobre esse fazer artísticos, conectando-se com suas relações que tem com a dança, entender nossa satisfação, desejo, lutas, perdas e conquistas que temos cotidianamente, pelo fato de escolhermos sermos artistas, enquanto uma Cia de produção periférica.  

 

Conte um pouco da história do grupo e também sobre projetos para o futuro

O Diversidança nasce em 2006 com intuito de reunir jovem que gostavam de dançar, ao longo do tempo investiu num processo de formação artística e logo veio a profissionalização do grupo. O Diversidança devolveu a sociedade alguns artistas com formação profissional exclusivamente oriunda na zona sul da cidade de São Paulo.

A experiência de vida norteia a pesquisa de linguagem estética da Cia Diversidança, entendida como um canal que pretende reverberar em nossa Dança as indignações singulares e coletivas, numa abordagem poética, emocional, simbólica e política, que apontem para as intersecções entre a arte e a vida. Por meio de investigações que partem de um desejo de buscar na memória, inspiração, por meio de dispositivos criativos: narrativa, descritiva, racional e pontual. Esses elementos sempre são utilizados para compor a dramaturgia cênica, no entanto os interpretes não contam, descrevem, pontuam relatos ou histórias, o que nos interessa e o que buscamos para essa dramaturgia é a recordação da sensação, a potência emocional vivenciada, o estado psicológico adquirido ao presenciar determinadas questões e como a vida interfere no modo de ver, ser e estar no mundo. A ideia não é narrar os fatos e sim transmitir as emoções vivenciadas nos fatos.

Em 2015, sentimos a necessidade de ir para as ruas, praças e parques motivados pelo desejo de falar de dança, fazendo dança. E esse é um caminho que temos trilhado agora, nossos próximos projetos sempre refletem sobre como disponibilizar a dança de uma foma mais horizontal com a população preferencialmente periférica. Temos novos projetos, sim, mas muito deles dependem de verba, o que inviabiliza a realização de muitos, uma vez que temos uma disputa grande por meio das políticas públicas que são escassas e não dão conta de toda a pluralidade, hoje, pulsante na cidade e outros mecanismos que não amadurecem sua visão e possibilidades para a criação em arte... O Brasil precisa entender que os artistas são trabalhadores. Vivemos num sistema muito cruel, os brasileiros infelizmente não buscam na arte um local para "arejar os ares", ir num espaço assistir um trabalho cênico, atualmente é um ato de fé, com os gastos que temos, as vezes, apenas pagar a condução já se torna caro, imagina uma bilheteria. A arte por sofrer o paradigma de ser inacessível, por que por muito tempo foi assim, e até hoje refletimos esse pensamento, por que tempo, custa. E aqui que entra uma de nossas inquietações...

por Paulo Pastore


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