Corpórea Companhia de Corpos: A missão de evidenciar corpos negros em ações cotidianas

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Qual o impacto do cárcere na vida da mulher negra? Por quê esses corpos são os alvos preferenciais das prisões? O negro possui um corpo ou o corpo negro é uma prisão? O processo de pesquisa e apresentação de dança “Rés”, da Corpórea Companhia de Corpos, buscou discutir como o cárcere impacta a mulher negra, nas suas mais diversas intersecções, seja no seu psicológico, no seu corpo ou no seu intelecto.

A Agenda da Periferia entrevistou  Verônica Santos, a responsável pela direção geral do “Rés”. Na conversa, ela fala, por exemplo, da quantidade de “portas fechadas (das mulheres) marcadas por serem negras”, comenta dos pontos de influência e do estilo do fazer artístico da Cia, bem como do processo de formação e pesquisa.

Por fim, Verônica analisa o lugar e a representação do corpo negro na arte e conta um pouco da história e da trajetória da Corpórea Companhia de Corpos.


Sobre o espetáculo de dança “RÉS”, falem um pouco do desejo de discorrer sobre o encarceramento do corpo feminino?

A Corpórea Companhia de Corpos convida o público para uma grande reflexão sobre a situação de mulheres em situação de cárcere no Brasil, sobre a violência existente neste universo contra o gênero feminino, a vulnerabilidade destes corpos até chegar ao momento da prisão e direciona o olhar para quem são essas mulheres encarceradas de diversas formas (física e metaforicamente).

Para além das grades e cadeados, “Rés” procura lançar o questionamento sobre quantas portas fechadas já existiram, existem e ainda existirão na vida destas pessoas que, de certa forma, são marcadas por serem mulheres negras. A obra faz uma análise também sobre o entorno e sobre as mulheres que acabam levando uma vida de encarceramento por terem companheiros, filhos e outros familiares em situação de cárcere.

Com direção geral de Verônica Santos, “Rés” é uma produção em dança e a primeira obra da Corpórea Companhia de Corpos, que investiga uma outra forma de pesquisa e um novo olhar sobre como transladar o corpo negro cotidiano para a cena.

Em Rés, a dança é utilizada para apresentar três corpos femininos e negros em cena, que compartilharão as diversas possibilidades de reflexões e denúncias de um aspecto social que está sempre à margem das discussões.


Qual a sensação (ou significado) de usar a dança de orixás femininas do candomblé para denunciar/revelar a violência cometida contra as mães negras?

Acho que essa pergunta traz um pequeno conflito. Nós não usamos danças de orixás, usamos as sensações e a fisicalidade dessas sensações para expor os nossos corpos aos nossos temas. Por exemplo: Se eu te perguntar sobre uma situação de cárcere no seu dia a dia e pedir para que você conte sobre ele, vamos trabalhar com o teu gesto e tuas sensações para encenação e consequentemente o público sentirá o que você diz antes mesmo que tua palavra seja dita. Aqui estou te dizendo a forma em que a obra “RÉS” foi construída. Outras obras, talvez tenham outras necessidades corporais.


Como têm sido as experiências de pesquisa na “Escola Livre de Teatro de Santo André”?

Tanto na ELT quanto no CRD, tem sido uma experiência incrível, porque estamos trabalhando com dois públicos diferentes. No Centro de Referência da Dança de São Paulo- CRD, temos um público mais voltado a dança, com exceção de uma das meninas que uma professora aposentada que talvez seja a mais incrível de todas nós pelas informações que o seu corpo traz através de sua vivência. Na Escola Livre de Teatro de Santo André, elas são do campo teatral e isso faz agente entender o nosso hibridismo enquanto Companhia e a montagem da obra RÉS. Somos uma companhia que habita essas duas linguagens, como praticas corporais de abordar o mundo.


É possível dizer que, nos últimos anos, o tema do “corpo negro” tem sido mais discutido no universo da arte? A relação do ser artístico x racismo é um tema que tem passado a ter mais relevância?

Sim! Tem sido muito, muito discutido, sobre tudo, porque agora os Artistxs Negrxs podem “escolher” onde quer estar e fazendo o quê e dizendo o quer fazer. Mas ainda precisamos desvencilhar o nosso corpo e a nossa arte e a nossa prática da responsabilidade de responder ou guerrear contra o racismo. Precisamos entender que nossas praticas são continuidades de outras práticas feitas pelo povo negro e não necessariamente existimos para o eterno combate ao racismo. Quem inventou o racismo foi o homem branco o que temos que fazer é conscientiza-los de que essa conta é deles e que não vamos devotar os nossos corpos em função ao combate do racismo, vamos discutir arte por igual porque não podemos mais esperar o que os nossos Corpxs Negrxs exige como urgência primordial que ser habitado por nós mesmos. Sermos Artistxs Negrxs, por si já é uma luta, porque lidamos com o silenciamento das nossas vozes na história dos nossos corpos e resistir é falar e falar mais e abrir portas com as mãos e com os pés. Mas nunca deixar de entrar.


Conte um pouco da trajetória da “Corpórea Companhia de Corpos”

Na tentativa de compreendermos a construção subjetiva, que ampliam os saberes e despertam sensibilidades, buscamos a potencialização dos nossos corpos. A Corpórea Companhia de Corpos tem como objetivo evidenciar corpos negros em ações cotidianas. Neste processo de historicizar os nossos corpos a partir da trajetória dos outros corpos, sentimos a necessidade de contextualizar as nossas referências estéticas, poéticas e políticas entrelaçadas nesses corpos que se faz urgente e indispensável. Partindo de questões e reflexões sociais que desempenham o papel do corpo negro na cena, os fundadores: Verônica Santos, William Simplício e Malu Avelar estabelecem a preposição de uma pesquisa que objetiva não somente criar, mas, também resgatar suas ações, produções, memórias e trajetórias no percurso de suas contemporaneidades na cena. Estreamos nossa primeira obra em Dia 18 de outubro de 2017 no SESC 24 de maio – SP. Atualmente fomos contemplados pelo RUMOS Itaú cultural 2017-2018, com o projeto: Ocupação RÉS, Mulheres em Cárceres, onde podemos refletir de forma mais ampla para além da dança sobre os cárceres do corpo feminino no Brasil. Agora estamos seguindo com o “Núcleo de pesquisa continuada: Do corpo Diariamente Encarcerado e a Urgência Pelo Movimento” na Escola Livre de Tetro de Santo André-ELT e Centro de Referência da Dança de São Paulo-CRD até o final de junho

 


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