Coronavírus: A periferia busca a sua “fórmula mágica da paz” para seguir com esperanças no futuro

 Paraisópolis I Vilar Rodrigo



A periferia está buscando a sua “fórmula mágica da paz”. A lembrança dos potentes versos da letra “Fórmula Mágica da Paz” é feita pela psicóloga Ivani Oliveira para ilustrar como deve ser a vida nas periferias, quais as preocupações, os cuidados e as alternativas frente às mudanças provocadas pela pandemia do Coronavírus. Ivani é vice-Presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.

Na conversa com a Agenda da Periferia, Ivani fala dos impactos sociais e psicológicos da crise, avalia os lugares (e não lugares) das atividades culturais e ações que podem ser tomadas para ajudar no bem estar psicológico individual e coletivo. A psicóloga também é integrante do coletivo Kilombagem e mestre em Psicologia Social pela PUC-SP.

Para a psicológica, sem dúvida a ausência de encontros e espaços culturais terão um impacto grande porque funcionam como espaços de resistência e luta, mas aponta que a periferia tem procurado alternativas e elas estão sendo encontradas. As fórmulas mágicas da paz, seja as transmissões de atividades culturais online e até mesmo o resgaste do hábito de ligar, estão sendo procuradas e serão encontradas.


27174018 1720536984705566 4665282168612737228 oEm poucos dias, o mundo entrou em uma outra realidade. Para iniciar a conversa, a partir do seu olhar de psicóloga, como você enxerga esse momento? O que mais chama a sua atenção ou te preocupa frente a essa situação?

Vejo esse momento como um fenômeno de difícil compreensão por todos os seguimentos da população principalmente devido o fato de governantes negarem o caráter letal da pandemia para as pessoas em maior vulnerabilidade social,sendo exatamente essa a minha maior preocupação frente as exigências de quarentena, penso em como ficarão as famílias de trabalhadores excluídos do emprego formal,como será ficar em casa para aquelas pessoas que nem o direito a uma moradia digna tiveram. 


Nos últimos anos os saraus, rodas de conversa, show’s e teatros multiplicaram-se pelas periferias de São Paulo. Antes de seguir para a pergunta do que acontecerá com o isolamento social, por quê esses espaços e ações culturais ganharam tanta representação e significado para a população periférica?

Acredito que esses espaços mobilizam, conscientizam e comprometem politicamente a população periférica, pois eles revelaram as contradições existentes na ideologia internalizada de que somos todos iguais, explicitam o machismo,o racismo e a LGBTQIA+fobia são mecanismos de dominação tal qual a opressão de classes que faz com a periferia receba menos investimentos que os bairros centrais,  e portanto são nestes locais que as pessoas tem acessado pensamentos capazes de transformar a realidade.

 

Sem essas atividades, é possível imaginar o impacto que isso pode causar na vida das pessoas que construíam e participavam dessas atividades?

Penso que sem essas atividades poderá acontecer uma desmobilização politica nestes territórios,entretanto sabemos que cada sarau, cada companhias ou grupos itinerantes de teatro, dança ou música, cada ponto de cultura tem sua história e muitas delas são histórias de resistências e luta. Então, acredito que haverá uma a permanência da transmissão cultural desses locais, as potencias que se expandiram nestes locais não voltam ao estágio anterior, foram modificadas e encontram novos caminhos.

 

Tem multiplicado-se diversas ações de artistas fazendo show’s online, contadores de história e poemas sendo declarados em diversas redes sociais. Acha que isso é uma alternativa válida?

Sim, esses são os novos caminhos que mencionei acima, apesar da tecnologia já existir o uso que faremos dela será outro, penso que podemos articular o novo e antigo, podemos nos unir sem nos aglomerar, são lives nas redes sociais por uma frente e a transmissão na rádio alternativa por outra, e aquela ligação pro telefone fixo (que não usamos mais) para falar com as nossas mães, avós, tias e madrinhas. As pessoas mais velhas são os alicerces das quebradas, elas dão a base das virtudes populares, foi da força do trabalho delas que as periferias se mantiveram em resistência, façamos uma pandemia de afeto em forma de poesias para aquelas e aqueles que sustentam a nossa força coletiva!


Quais conselhos ou dicas daria para que as pessoas cuidem da sua saúde mental? Por quê não deixar atividades culturais de lado?

Cuidar da nossa saúde mental neste momento será  acreditar em perspectivas futuras, mantendo a esperança. Cada um sabe qual é sua "fórmula mágica da paz" pode ser brincar com as crianças, desenhar, ouvir música ou até mesmo relaxar naquela cadeira que fica voltada pra rua. Dosar as informações que recebemos durante o dia é importante para evitar estresse, aumento da ansiedade, desorganização psíquica e emocional. Manter a rotina dos horários das refeições e de dormir ajudará a não nos perdemos nos nossos dias, assumir as tarefas de limpeza e organização da casa é tão importante quanto tirar um tempo pra cuidar de si.  Sentir-se com medo, estressado é o que acontece a maioria das pessoas quando passamos por uma crise, não significa que somos fracos ou que não saberemos como lidar,significa apenas que somos humanos e nos afetamos quando estamos em risco. As atividades culturais que virão serão alimentos para nossa mente não sucumbir pela violência da concentração de renda e a miséria estrutural que coloca as periferias no front dessa guerra.

por Paulo Pastore

 


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