Clube de leitura antirracistas: Um espaço de encontro e de afeto na luta contra o racismo

clube antiracista
por Paulo Pastore

Explorar as potencialidades e os sentidos de autores como Neuza Souza, bell hooks e Patricia Collins; Compartilhar das experiências com quem está próximo e, na combinação desses processos, buscar despertar práticas e reflexões antiracistas. O “Clube de Leituras Antirracistas”, que mensalmente se reune em espaços públicos de São Paulo, se propõe a ser um espaço político, de reflexão e afeto.

A Agenda da Periferia conversou com os criadores do clube: Lubi Prates, poeta, psicológoca e pesquisadora de relações raciais; Vine Aleixo, doutorando em Sociologia pela Unicamp, atua no desenvolvimento de proposta educacionais antiracistas. Eles explicam que a ideia de criação do projeto surgiu “da percepção de que existe um fosso entre não ser racista e ser antirracista” sendo necessário, portanto, que a sociedade assuma o compromisso de lutar contra o racismo.

Lubi Prates e Vine Aleixo (idealizadores do Clube de Leitura Antiracistas)Na conversa, Lubi e Vine contam um pouco sobre as - até esse momento - quatro edições do evento, como tem sido a dinâmica entre os participantes, a seleção dos textos e as expectativas para as próximas edições.

Como surgiu a ideia do que “Clube de Leitura antirracista”?

Como diz Kabengele Munanga - antropólogo congolês naturalizado brasileiro, "o racismo, no Brasil, é o crime perfeito" porque, apesar de vivermos numa sociedade estruturalmente racista, a maioria das pessoas não se reconhecem como tal - prova disso é a pesquisa nacional realizada em 1995, pelo Jornal Folha de São Paulo, onde 89% da população diz haver racismo no país, embora apenas 10% admite ser racista.

A ideia do clube surgiu da percepção de que existe um fosso entre não ser racista e ser antirracista e, enquanto a maioria da população se eximir da responsabilidade pela manutenção desta estrutura racista em que vivemos atualmente, não será possível uma mudança efetiva. Como diz a Angela Davis, "não basta não ser racista, é preciso ser antirracista". 

 

Quem organiza o evento? Conte um pouco sobre vocês…

Lubi: Sou psicóloga e pesquisadora das relações raciais. Estou no mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano na USP.

Vine: Sou mestre e doutorando em Sociologia pela Unicamp. Há alguns anos desenvolvo atividades (palestras, cursos, orientações, pesquisas) formativas em torno da educação para as relações étnico-raciais. Cada vez mais tenho me interessado por esse formato de leituras públicas, por seu caráter democrático, político e formativo. 

 

Qual a expectativa em torno das discussões, do debate dos textos? Há objetivos culturais e ou políticos que o “Clube de Leitura antirracista” pretende alcançar? 

O Clube é uma oportunidade de encontro de pessoas com múltiplas formações e pensamentos, interessadas em conhecer e conversar de uma maneira mais horizontal e afetiva. Não nos propomos a dar aula ou defender um ponto de vista único. O pressuposto básico é a leitura coletiva de textos antirracistas, que possibilitem um apuro teórico básico sobre identidades raciais, racismo, preconceito, discriminação, branquitude, entre outros temas. 

Além disso, como o antirracismo é ao mesmo tempo uma perspectiva teórica e política, esperamos a cada edição oferecer oportunidades para cada um pensar as dimensões em que somos privilegiados e oprimidos, e sobretudo perceber que todxs podemos nos engajar cotidianamente no combate às diferentes formas de opressão. Há ainda outra dimensão política que são as micropolíticas do encontro, do afeto e da alegria de conhecer e compartilhar. Em tempos extremos, há muita ousadia e generosidade em promover debates em espaços públicos como a Casa das Rosas (onde começamos) e agora no CCSP.  

 

Na terceira edição, o debate teve como foco a temática indígena, partindo das reflexões de bell hooks. Em geral, a reflexão “antirracista” remete a uma relação negro x branco, por quê é importante ampliar essa percepção?

Acreditamos que seja necessário ampliar esse debate em algumas direções. Nos três primeiros encontros dedicamos leitura as identidades raciais: negras, brancas e indígenas, respectivamente. No primeiro encontro, lemos sobre os efeitos do racismo na saúde mental dos negros. Quanto pensamos a branquitude, no segundo encontro, destacamos as diferenças intragrupais do branco como identidade racial e o papel crucial dele no racismo brasileiro, pautado pela cromatismo de cor. Enfatizamos que o racismo é uma problemática branca, como diz Grada Kilomba. Já no terceiro encontro, ampliamos o debate pensando na alianças históricas entre indígenas e negros e as identidades compósitas entre esses povos não-brancos. O que é interessante, posto que em geral, se pensa a mestiçagem apenas de um ponto de vista a diluir as identidades negras e indígenas, em um contexto assimilador  de valorização da identidade branca, valorizando-se a ideologia da democracia racial, em que a mestiçagem biológica é tomada como premissa de negação das identidades não-brancas. O erro deste raciocínio é ignorar que as identidades são políticas e não puramente determinadas pela composição genética. 

No ensaio "'Renegados" revolucionários: americanos nativos, afro-americanos e indígenas negros", presente no livro Olhares negros (2019), e que propomos como leitura do 3° encontro do Clube,  a escritora, pensadora e ativista negra bell hooks, começa o texto lembrando que  antes mesmo da chegada da colonização os nativos americanos e africanos -  que vieram para a América antes de Colombo - já compartilhavam modos de vida e cosmologias semelhantes. O processo colonial buscou apagar essa percepção, incentivando a negros e indígenas a não só negar suas próprias identidades, mas os vínculos históricos e ancestrais entre povos originários e povos afro-diaspóricos. Para a ativista estadunidense, o processo de escavar esses vínculos históricos não é fácil e não está, em geral, em documentos oficiais e escritos. Daí, a importância de valorização dos conhecimentos, histórias e memórias de pessoas comuns, sejam elas familiares ou não. Encontrar esses vínculos ancestrais no passado e no presente é uma forma de descolonização da existência. A essa leitura de bell hooks, incluímos as reflexões do ativista indígena  e grande pensador brasileiro Ailton Krenak, quando este diz que é fundamental considerarmos as alianças afetivas, isto é, as formas de solidariedade políticas, existenciais e culturais não pautadas pelo viés mercadológico, nós conseguimos trazer para o Clube leituras que são emergências históricas e urgentes do presente, pois uma vez que se fomenta em termos de política institucional o genocídio indígena e negro, além da opressão de gênero e de classe, torna-se fundamental pensar em formas de atuação conjunta. Em resumo, é importante pensar os antirracismos (no plural mesmo), porque afeta as populações não-brancas, indígenas, negros e afro-indígenas, sobretudo em um contexto estatal autoritário e de ultra-direita em que visivelmente há um recrudescimento de ações violentas contra esses povos. Nesse contexto, é urgente que saibamos ampliar nossos olhares para além das opressões que nos atingem de modo mais visível, seja de raça, gênero e classe. 

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Como foi a participação do público nos últimos encontros? Qual a expectativa para os próximos? Como os temas são definidos?

O interesse e participação do público nos surpreendeu muito. O primeiro encontro teve lotação máxima e o segundo e terceiro mantiveram um público de 30 a 40 pessoas. Mas, para além de números, são pessoas engajadas na luta antirracista, dispostas a se educarem em busca de igualdade. Pretendemos que, a medida que vamos aprofundando nos temas, esse interesse e engajamento permaneçam. Ao longo do ano, vamos discutir temas que rondam a questão racial, como feminismo negro, masculinidades negras e necropolítica.

 


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