Cidinha da Silva: "Escrevo sobre racismo porque é necessário; minha poética bebe das águas das Africanidades"

cidinha da silva 1



por Paulo Pastore

Sobre as desigualdades raciais e racismo, eu escrevo porque é necessário. Sobre a “Africanidade”, eu escrevo porque é o lugar onde minha poética bebe. A definição é um rsumo de como a escritora Cidinha da Silva, ganhadora do Prêmio Biblioteca Nacional 2019, resume as duas vertentes do seu trabalho com as palavras. Em outubro, Cidinha inicia mais uma turma do curso “Autoria Negra na Literatura Contemporânea”.

Na conversa com a Agenda da Periferia, ela fala sobre a sua preferência atual por escrever contos mais longos: “ eles proporcionam o desafio de manter o ritmo durante a narrativa que me interessa muito”.  Ao todo, Cidinha já publicou 17 livros distribuídos pelos gêneros crônica, conto, ensaio, dramaturgia e infantil/juvenil.  Ela é a editora do selo Kuanza Produções.

Entre os sucessos da escritora, destaca-se também o “#PAREMDENOSMATAR”, o qual ela apresenta como um “documento sobre o genocídio da população negra no Brasil”. Cidinha é direta ao dizer que “não escreve para brancos”. Explica a autora: “Escrevo para o mundo, para quem quiser ler, e minha letra (em “#PAREM…”) é crua, dura e cortante.” 


Das múltiplas e diversas facetas do seu trabalho, tem alguma que é a sua preferida?
Sou prosadora, escrevo prosa, ficção. Tenho gostado muito dos contos mais longos, eles proporcionam o desafio de manter o ritmo durante a narrativa que me interessa muito.

 Em uma entrevista você falou de dois vetores da sua literatura: a questão do racismo e a reinvenção das Africanidades. Podia falar um pouco sobre esses vetores?As africanidades são a reinvenção possível de África em Diáspora. Os textos sobre racismo, discriminação e desigualdades raciais escrevo porque são necessários. A minha poética, por sua vez, bebe das águas das africanidades, orixalidades, ancestralidades, tensão e diálogo entre tradições (africanas, afro-brasileiras, afro-indígenas, afro-diaspóricas) e contemporaneidade.

 

#PAREMDENOSMATAR quando você escreveu, há 3 anos, imaginaria, por exemplo que explodiriam protestos como “Blacks Live Matter”?
 O movimento Blacks Lives Matter é muito antigo, tem pelo menos 15 anos, já foi cantado em muitas letras de Rap, em clips de artistas importantes. Ele pode ter tido mais visibilidade nos anos recentes e ganhou novos apoiadores de muita evidência midiática. A gente vem dizendo desde o início dos anos 1990 que a luta racial vai recrudescer no Brasil e vai piorar muito ainda, infelizmente e com o avanço da direita no mundo, é inexorável que as práticas racistas e genocidas sejam amplificadas.

 

Lissandra PedreiraÉ possível dizer que essa obra é um manifesto contra o genocídio da população negra? Um chamado para organização? Uma mensagem para “o povo branco”?

Não, eu não digo, mas pessoas, obviamente, podem ler assim se quiserem. O livro # Parem de nos matar! é um documento sobre o genocídio da população negra no Brasil, um documento sobre as diversas formas que o racismo adota para matar as pessoas negras. Quem chama para a organização política são as organizações da sociedade civil e as lideranças políticas, por exemplo, a Coalisão Negra. Eu escrevo literatura e coloco minhas ideias e criações em circulação. Quanto à última parte da pergunta, eu não mando mensagens, tampouco escrevo para os brancos. Escrevo para o mundo, para quem quiser ler, e minha letra (nesse livro) é crua, dura e cortante.

 

A recepção do "Exu em Nova York", inclusive recebendo o prêmio “Prêmio Biblioteca Nacional 2019” te surpreendeu?  
Sim, me surpreendeu porque trata-se do meu primeiro livro de contos, eu esperava ganhar prêmio com "O homem azul do deserto", meu oitavo livro de crônicas lançado junto com o Exu em 2018, que é muito bom também.

Qual a importância dessa obra na sua trajetória? É meu primeiro livro de contos e ele me mostrou que posso escrever outros com grande chance de darem certo.

 

Qual a expectativa para o curso "Autoria negra na literatura brasileira contemporânea" ? 
De verdade? Minha expectativa é lotar a turma para ganhar um dinheirinho que valha a pena. Eu ganho po pessoa pagante, sabe? Farei um trabalho excelente para 50 ou para 10 pessoas, mas ganharei um pouco mais se tiver 50. Já ministrei esse curso na Escrevedeira e foi frustrante do ponto de vista  financeiro, pois tive apenas 10 alunos e é um trabalho muito grande e detalhado, que toma muito tempo de pesquisa e preparação. Minha expectativa nesta edição no Centro Cultural O Barco é ter um bom número de pagantes que possa  recompensar as aulas ricas e minuciosamente embasadas que entrego às pessoas.

 

Você avalia que, no momento atual, existe um maior interesse de conhecer autoras e autores negros que produzem literatura?  
A gente cria esse interesse, não é? O nosso trabalho de extrema qualidade quando publicado e posto em circulação, naturalmente desperta esse dito interesse.


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