Bloco do Beco: 15 anos criando espaço para brincar o carnaval na quebrada

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Para alguns, a ideia de “ocupar as ruas” é um conceito moderno e descolado, parte do crescimento ou ressurgimento do carnaval em São Paulo explora muito desse conceito. Jenyffer Nascimento, do Bloco do Beco, é consciente ao lembrar que o carnaval nunca deixou de acontecer nas quebradas, porque, ao mesmo tempo que é espaço de luta, “periferia também é afeto, é samba, é reggae, é groove e precisamos ter espaços em que possamos gozar de liberdade”.

Além de falar sobre o carnaval como um espaço do “mainstreaming”, ela comemora os espaços políticos de resistência e luta promovidos pela multiplicação de blocos que celebram a cultura negra, as lésbicas, as gays e as trans tendo espaço, o direito das mulheres brincarem o carnaval em oposição ao machismo.

Na entrevista abaixo, Jenyffer fala também da Associação que atua no Jardim Ibirapuera, da relação com a comunidade e da compreensão de que a ação política e experiência cultural estão unidas. O Bloco do Beco saí nesse sábado de carnaval


Há quanto tempo o Bloco do Beco faz carnaval de rua na comunidade?

Desde 2002, fazemos o carnaval nas ruas do Jd. Ibirapuera.

 

Por quê o Carnaval de rua é importante e deve ser preservado?

O carnaval é uma festa popular, em que as pessoas enchem as ruas com sua alegria, sua dança, sua fantasia para festejar! É fundamental que tenha continuidade e que cada vez mais pessoas possam se apropriar dessa forma de viver o carnaval.


Nos últimos anos, tem sido bem recorrente a discussão em torno do “ressurgimento” ou “crescimento” do Carnaval de Rua em São Paulo. De que forma você enxerga esse debate?

Óbvio que o carnaval em SP cresceu baseado em um perspectiva turística e econômica, não tem a ver com a vontade de população apenas. Com o esgotamento do mainstream do carnaval do sambódromo, o carnaval de rua é uma possibilidade de atrair muito mais gente e quanto, mais gente mais dinheiro em circulação, o que é bom para a cidade de forma geral.

Em contrapartida, o aumento do carnaval de rua em SP ampliou o acesso para uma parcela significativa da população. Creio que a variedade de "bloquinhos" e suas múltiplas identidades, permite que as pessoas possam estar onde se identificam e se sentem bem. Especialmente para nós, nos anima ver a quantidade de blocos que estão celebrando a cultura negra, as lésbicas, as gays e as trans tendo espaço, as mulheres podendo brincar o carnaval em oposição ao machismo, enfim, na alegria de ser quem somos e de celebrar a nossa existência, apesar de tudo!


Apesar de ser quase um consenso positivo o crescimento do Carnaval em São Paulo, há uma concentração da festa no centro expandido da cidade. O Bloco do Beco acontece dentro da periferia. É possível traçar uma paralelo?

Nós estamos fazendo o carnaval na quebrada, há uma década e meia. Nós éramos poucos foliões e batuqueiros quando tudo começou, a própria comunidade estranhava. Quando desfilamos com meia duzia de gatos pingados éramos vistos como "os doidinhos da rua", mas hoje isso mudou. Acreditamos que uma tradição não surge do nada, ela começa pequena e vai se propagando na medida em que as pessoas vão adquirindo confiança e percebendo que elas também podem fazer parte desse espaço.

Por isso, acredito que o carnaval nas periferias começou a crescer não em paralelo ao carnaval de rua de SP, mas num movimento da própria periferia na busca por construir esses espaços. Muitos blocos nas periferias estão diretamente atrelados a grupos que já se organizam em trabalhos sociais, artísticos e culturais e tomar as ruas para pular o carnaval é só mais uma dessas ações.

Parte da nossa crença é de que nós população periférica vivemos um cotidiano de muitas lutas, muito trabalho e estamos submetidos a uma série de precariedades, por isso, estar nas ruas e ocupá-la com nossa alegria, nossa cor, nosso jeito, junto dos nossos, sejam eles amigos, familiares, parceiras e parceiros é muito simbólico e revigorante para nós! Periferia também é afeto, é samba, é reggae, é groove e precisamos ter espaços em que possamos gozar de liberdade.


A Associação foi fundada em 2002. Como avalia esses 16 anos de história.

 

Avaliamos que somos sobreviventes e resistimos porque somos teimosos (risos). Desenvolver um trabalho comunitário está longe de ser tarefa simples, mas há de se ter prazer nisso. Ao longo dos anos, vivemos fases bem difíceis, mas miramos sempre o horizonte. Muitas pessoas que passaram pelo Bloco e estão criando seus próprios caminhos, então, vê-las em caminhos inspiradores nos motiva.

por Paulo Pastore


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