“Bixa Monstra Presidenta”: uma história forte e provocadora que discute as relações de gênero e política no Brasil

Foto Alessa Melo

 

Narrar histórias “improváveis” de serem reais, às vezes podem ser a melhor maneira de denunciar ou revelar o quanto aquilo que entendemos como comum, beira o absurdo. O espetáculo “Bixa Monstra Presidenta”, da Cia Humbalada, expõe o quanto a política brasileira está fora do real, ao contar a história de Tel Silvia, uma bixa prostituta, amante do presidente da república, que consegue, ela própria se eleger presidenta.

Bruno César, diretora e escritora do espetáculo, explicou a Agenda da Periferia que o espetáculo surge da sua inquietação quanto a possibilidade uma pessoa marginalizada, como um bixa monstra, chegar ao poder e também de qual o potencial de mudança ela poderia, de fato, produzir.

Inspirada no célebre “Gota D’água”, César diz esperar contar uma boa história, de proporcionar para quem for no dia 28, na Mostra de Artes Cênicas, a sensação de ter assistido uma apresentação “engraçada, forte, política e provocadora”. Confira abaixo a íntegra da entrevista.

“Bixa Monstra Presidenta” é um título forte e direto, mas, para quem não entendeu o recado, por quê esse nome?

A peça conta a história da personagem Tel Silvia. Uma bixa prostituta que é amante do presidente da república. Esse caso vira um escândalo nacional e Tel Silvia conquista a popularidade tornando-se presidenta.

A ideia da peça surgiu quando começamos a refletir sobre os lugares de poder que ocupamos e como eles estão sendo representados. Hoje por exemplo nós temos uma Câmara de Deputados majoritariamente masculina e branca e as poucas mulheres que ocupam reafirmam pautas conservadoras lá dentro. Quando pensei em escrever e montar o texto a proposta era refletir sobre de fato quem nos representa e como seria a possibilidade de "uma das nossas" estar no topo do poder.  Quer dizer, diante desta máquina política que enfrentamos haveria alguma possibilidade de pessoas marginalizadas ocuparem esse cargo e realizarem uma política de reformas profundas no Brasil?


O texto do espetáculo foi construído a partir de um processo de debates e discussões, certo?

Na realidade o texto não foi construído coletivamente. Ele nasceu de diversas inquietações minhas principalmente no período em que estava escrevendo o Mestrado na Universidade e repensando o papel de uma bixa como eu defendendo alguns temas em espaços áridos como a academia. A ideia também surge quando eu começo a ir em rodas e debates de militância LGBT e começo a perceber que muitas das pautas defendidas não acolhem as questões LGBT periféricas e raciais. É nesse momento que eu começo a criar um recorte interseccional de classe, raça e gênero na discussão LGBT e crio inclusive a Periferia Trans, um festival de arte LGBT que acontece no Grajaú. Então, o texto nasce desse turbilhão de sentimentos e experiências. Eu iniciei ele com a pergunta "Será que se um dia a presidenta for assumidamente LGBT alguma coisa muda?"

 

Bruno César Lopes 01as referências ou fontes de inspiração da peça, da forma como a apresentação é construída?

A grande referência do texto é a obra "Gota Dágua" do Chico Buarque e Paulo Pontes. Toda a narrativa e estrutura tem uma forte inspiração nesse texto. As personagens Joana e Jasão, e também a própria Medeia que inspirou os autores, serviram de base para criação dos diálogos e da tensão entre eles. É como se na nossa leitura Joana fosse uma bixa e ela mesma vai se tornando Jasão! Uma loucurinha que gostamos de fazer. Além disso, temos também o teatro épico como um horizonte na maneira como estamos criando a encenação. E acho que também a grande inspiração da narrativa da peça são as bixas e travestis das periferias. Além claro, das figuras monstruosas, das bruxas, do profano e de toda uma estética que foi marginalizada e assassinada na nossa história. Nesse sentido, o feminismo está sendo fundamental para o entendimento da peça. A atriz Tatiana Monte, que também faz parte da Cia Humbalada é uma grande pesquisadora de um feminismo periférico aqui no Grajaú e suas contribuições estão sendo fundamentais pro processo.


Qual a reação você espera despertar no público?

Em primeiro lugar eu quero muito que a peça narre uma boa história. Sinto falta de boas histórias sendo narradas no teatro em São Paulo ultimamente. Minha vontade é que o público saia do teatro com a sensação que ouviu e viu uma história engraçada, forte, política e provocadora. Eu realmente espero que a peça provoque outras camadas na discussão LGBT e da sexualidade. Que a gente possa ver que a questão da sexualidade está muito além de "fulano é gay e ciclana é sapatão", mas que existe toda uma estrutura política e de poder que envolve o controle dos corpos femininos e transsexuais e que a permanência da heteronorma é uma discussão pública e não privada.


Como você avalia a relação da política, principalmente a institucional, com as “bixas monstras” no Brasil?

Sinto que falar de sexualidade é falar de relações de poder. Coisa que o Foucault já nos dizia. E acho que no Brasil se levarmos em conta a colonização e a economia escravocrata, tudo piora um tiquinho mais. Tudo por aqui parece ser mais complexo, o avanço das religiões neopetencostais, o fortalecimento de políticos conservadores, a história de uma democracia golpeada desde sua criação no país, as relações confusas entre público e privado, enfim, várias situações que aparentemente não tem nada a ver com a militância LGBT mas que em sua raiz fundamentam e dão forma para nossas existências hoje. Sinto que um próximo passo que precisamos fazer no teatro e na discussão LGBT é perceber o que o feminismo e as pessoas trans, e toda sua forma de ver o mundo, podem nos ensinar. Elas têm muito o que nos ensinar, só que a gente precisa querer silenciar e aprender também. Talvez as outras vias políticas e estéticas estejam com as trans e as mulheres, são essas pessoas que de tão marginalizadas socialmente conseguiram articular pensamento e saídas existenciais. Eu vejo potência nisso e quero ser isso também! E diante da depressão política atual pensar em estratégias de suspiros e respiros é fundamental.


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