Andressa Oliveira: O Passinho do Funk é a primeira dança urbana genuinamente brasileira

 

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“O funk não é só música, é uma arte com seus elementos próprios”. A explicação é da  produtora e ativista cultural Andressa Oliveira. Responsável pela criação da “Timeline do Passinho”,  da apresentação de dança que conta a história do passinho. 

Na entrevista para a Agenda da Periferia, Andressa,  que é integrante do movimento “Rede Ocupa Funk”,  crítica a forma como o preconceito social e racial geram uma profunda estigmatização do Funk, o qual não é visto como uma expressão cultural legítima ou genuína. Esse processo, explica a produtora, acaba ainda gerando a falsa noção de que o Funk “é só uma música”.

“O Funk é um movimento cultural, um estilo de vida, isso faz com que ele se componha de vários elementos além da música. Nossos elementos são funk, passinho e dj/beatmaker. Tudo isso é uma expressão da juventude das últimas 3 gerações, o funk é uma expressão cultural brasileira e esse movimento de identificação acontece naturalmente", observa.

A apresentação “Timeline do Passinho” já rodou por São Paulo e, no período pós-quarentena, a expectativa é chegar em outros estados. Andressa ensina que é ao mesmo tempo em que é possível observar uma identidade em comum entre, por exemplo, o Passinho Foda, o Passinho do Romano e Passinho dos Maloka, existem características e passos próprios que diferenciam os estilos.

O que é a “timeline do passinho?” Como foi contar a história desse movimento em uma apresentação?

Por conta da criminalização do funk a gente enquanto população tem negligenciado muito essa arte. O passinho (todos eles) são um universo gigante por si só e o funk ainda é visto só como música. 

É a partir da percepção que pouco se sabe sobre passinho e toda a complexidade e história que carrega que nasce a Timeline do Passinho, uma apresentação de dança que conta essa história através da dança e da oralidade. 

Eu pessoalmente tenho muito  orgulho de ter dado, junto com uma galera massa mais um passo no corre que é trabalhar para a quebra do estigma que a gente ainda carrega. 

A gente já testou vários formatos, com vários dançarinos e passamos por vários lugares. Hoje, a missão é tornar a apresentação em um espetáculo, circular pelo país estudando mais a fundo todos os passinhos e documentar essa história. 

E eu sou muito grata ao Chel Quebradeira Pura, Keyson IDD, Ale Valladares e Severo IDD pelo trabalho feito no passinho até aqui e por toparem fazer esse projeto acontecer. 

 

IMG 20200805 162139 079A gênese desse estilo é o passinho foda ou, por exemplo, dá para dizer que o passinho do romano, passinho foda e brega funk são um pouco mais “independentes ou autônomos”?

Entendemos o Passinho Foda como origem por um sentido cronológico mesmo, foi o primeiro que surgiu e foi o único por quase uma década até o nascimento do Passinho do Romano/Magrão. Todos têm passos e características centrais distintas, é fácil diferenciar o Romano do Brega Funk, por exemplo. Essa relação de origem está mais atrelada às características que o funk musicalmente ganhou em cada estado/região ao longo do tempo. 

A questão do tempo é um fator importante inclusive, o Passinho Foda é reconhecido como dança, é possível tirar DRT de passinho e ser avaliado por profissionais pioneiros, além de ter  os passos nomeados e catalogados.

 

Considerando as diferenças e semelhanças, é inegável que há muito em comum seja no estilo da música, seja nos seus dançarinos. Como explicar o fato dessa dança ‘tomar conta do Brasil’?

 O Funk é um movimento cultural, um estilo de vida, isso faz com que ele se componha de vários elementos além da música. De forma muito orgânica oi funk se organiza em uma estrutura muito semelhante ao hip hop. Tem todo um estilo de se vestir, uma postura, dialeto e jeito de ser próprio, que tem muito a ver com afirmação e enfrentamento, é um posicionamento político. Nossos elementos são funk, passinho e dj/beatmaker. Tudo isso é uma expressão da juventude das últimas 3 gerações, o funk é uma expressão cultural brasileira e esse movimento de identificação acontece naturalmente. Tem sido estudado e entendido pelo movimento que o passinho a primeira dança urbana do país, e isso diz muita coisa! Aí  deixa de ser moda, um fenômeno, é algo intrínseco ao ser jovem no Brasil, e não só.

 

Conta um pouco do que é o “ocupa funk” 

Há cinco anos eu tenho me dedicado a estreitar as relações com o funk, imergir de forma intensa no rolê musical e da dança pelo viés do trabalho e da pesquisa. Fui descobrir como que a magia acontece e entender a criação.  E dessas experiências percebi muita coisa. A primeira foi como o mercado cultural ainda cultiva uma estética comercial considerando mais a profissionalização burocrática do que o nível de propriedade, autenticidade e estudo que o artista tem sobre a arte que produz.

A segunda é que o funk tem uma organicidade muito forte, existe quase que por necessidade não para servir a um mercado e isso somado a sua “pouca idade” faz com que a gente não alcance essa profissionalização burocrática na velocidade que o mercado exige.  E a terceira é que o resultado disso são profissionais de fora do movimento ocupando a demanda de funk no mercado que só aumenta. Quem tem ganhado espaço sem legitimidade são pessoas brancas com ferramentas técnicas e financeiras para lidar com essa burocracia. A consequência disso é a banalização da cultura e a restrição de que o reconhecimento financeiro e intelectual seja dado a quem é de direito.

Entendendo que tudo isso são reflexo direto de questões sociais e de raça que por sua vez motiva a criminalização do movimento que surge a Rede Ocupa Funk que se propõe a reunir e instrumentalizar artistas e profissionais do movimento para disputar esses espaços de forma forma ostensiva mesmo. As lógicas postas hoje precisam ser invertidas

 


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