A invenção do Sertão: Cia de dança explora a ancestralidade e a resistência do sertanejo

unnamed 1
 

Por que, quando pensamos em sertão, não pensamos nos imensos rios e  nas paisagens floridas? Por que não pensamos nas estratégias de organização comunitária, como quilombos ou o arraial de Canudos? As “perguntas-respostas” dos diretores Ivan Bernadelli e Mônica Augusto, da Cia Dual, tão o tom do mais recente projeto da companhia de dança “Tríptico Sertanejo”. 

A apresentação faz parte do esforço da Cia Dual em investigar a história e o presente das danças, como a capoeira o jongo, o lundo, entre outras, as quais compuseram bases de resistência às condições impostas pela violenta empresa colonial, mantiveram vivas as memórias do ambiente originário dos povos submetidos ao processo de escravidão no Brasil.

Contemplado na 26ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo, o projeto foi adiado e agora as apresentações de Tríptico Sertanejo deram lugar a uma  vídeodança inédita com lançamento previsto para setembro; e o Ciclo de Encontros, inicialmente previsto para acontecer durante a temporada de Tríptico, foi reestruturado para ser realizado on-line no mês de agosto.

Na entrevista abaixo, Mônica e Ivan discutem a importância do Sertão como integrante da cultura e modo de ser do brasileiro, discute os preconceitos em torno dessa cultura. Além disso, o grupo posiciona-se políticamente em tornos do sentido da cultura no Brasil, do lugar das apresentações de dança e dos desafios de seguir produzindo arte no contexto atual.

 

Por que o nome "Tríptico Sertanejo?

O nome tríptico sertanejo vem da proposta de pensar o espetáculo a partir de 3 partes que podem ser vistas independentes, mas ganham um sentido maior quando interconectadas. Estas 3 partes dizem respeito às lendas femininas do cangaço, aos espaços vazios do pós-guerra de Canudos e ao baile dos centauros, com seus virtuosos sapateados.

 

"O sertão foi inventado. Desenvolveu-se uma ideia mítica de sertão”. Essa é uma frase carregada de sentidos. Qual é a ideia mítica que se tem do sertão hoje?

O que é mito? Estamos inclusive repensando essa ideia de mito, que de certa maneira se esvaziou completamente pela campanha eleitoral e por aquilo que se resolveu chamar de "bolsonarismo" no Brasil em 2018.

Mito seria aquilo que é acionado sempre que ritualizado. Aquilo que está consagrado ao redor do rito. Pacha mama, yvy marã ey entre os Guarani, a coroação no congado, são mitologias celebradas por diversos ritos ao longo dos tempos.

A palavra sertão, que contém todo um ideário, foi fixada de modo generalizado por uma lógica hegemônica e tipificado pela mídia, pela literatura e pela história do Brasil.

Nesse sentido, por causa dessa generalização, ainda hoje caímos num conceito pejorativo quando pensamos em sertão. As ideias e imagens de terra rachada, caatinga, retirantes, tão ritualizadas pela cultura midiática, propõem a mítica de um sertão selvagem, bárbaro, inculto, naïf. Esses conceitos vêm desde o século XVI, fixados pelo olhar da mentalidade europeia dos 1600 que, no século XX, ao avançar em outras criações imagéticas, também generalistas, criaram um “sertão” estruturado pelo olhar e pela mentalidade do sudeste do Brasil, tão eurocêntricas quanto as do seculo XVI.

Nossa proposta é expandir estes conceitos e ideias, perguntando: Por que, quando pensamos em sertão, não pensamos (também!) nos imensos rios, nas paisagens floridas e coloridas, na fauna exuberante e nas belas cachoeiras e quedas d’água? Por que não pensamos no nomadismo ou nas estratégias de organização comunitária (como quilombos, como o arraial de Canudos) como perspectivas legítimas para a organização social? Por que ainda se relaciona o “interior”, o “sertão”, à ausência; quando, pelo contrário, aprendemos demais com as tecnologias (agrícolas, urbanas, educacionais, artísticas) que vêm do sertão?

 

É possível dizer que tem ocorrido um resgate das danças de matrizes africanas e seu valor histórico,cultural e de resistência? Se sim, ao que vocês atribuem esse movimento?

Acho que a ideia não é bem resgate, quando pensamos em resgate pensamos numa lógica do que está perdido, e esta não é uma verdade. As danças de matrizes africanas sempre estiveram presentes na nossa cultura, inclusive fazem parte da nossa identidade histórica como legado e herança do povo negro. A questão é o modo como a herança colonial que carregamos até os dias de hoje engendra, organiza, estrutura e legitima essa historicidade. No Brasil, os movimentos negros vêm resistindo e lutando contra o racismo estrutural e epistêmico há tempos. Estes movimentos sociais se fortaleceram no momento em que a população negra começou a ter mais acesso não só à educação mas também à mobilidade e ao deslocamento no território. Isso sem dúvidas permitiu caminhos de consciência e legitimação destes saberes. Ainda assim, é preciso compreender que existir segue sendo um ato de resistência e luta contínua frente a um sistema racista, que se sustenta a partir de lógicas genocidas e se afirma através de um pensamento branco, cristão e eurocêntrico.

Este mesmo pensamento que invisibiliza, deslegitima e não reconhece outras existências é o mesmo que cria, de forma perversa, a ideia de “resgate” para se apropriar de existências e saberes que ele outrora negou. Faz isso de modo provisório, com intuito de consumir e apaziguar os movimentos que não podem ser controlados. Acredito que é isso que vem acontecendo. As lógicas de ser, de fazer e de pensar negras passaram a ocupar outros espaços de existência e a comunidade vem se fortalecendo ainda mais, legitimando seus próprios fazeres. É um caminho longo, que sempre esteve presente, mas hoje pode se manifestar com mais profundidade, disputando territórios de poder.

 

O ciclo de palestras que compõem o projeto contou com a participação de mestres de vários estados. O que esse intercâmbio de realidade acrescentou ao projeto?

Esse intercâmbio possibilitou que expandíssemos nossas ações para além de nosso grupo, para e com outros interlocutores. Permitiu pluralidades de pensamento, de métodos e de fazeres. Compartilhar outros olhares.

 

Qual o espaço as Cia de Dança possuem hoje? As apresentações de dança são prestigiadas como apresentações teatrais, saraus ou dança… Ou é uma linguagem que ainda está conquistando um maior espaço?

A cultura e as artes no Brasil, de modo geral, são pouco valorizadas. Penso que as companhias de dança não conseguem estruturar estratégias de continuidade em seus trabalhos, salvo raras exceções, o que seria fundamental para estabelecermos outros modos de apreensão do que é visto e sentido através dos espetáculos. A dança é uma linguagem que comunica a partir de códigos que não são tão diretos quanto a palavra, ou quanto às narrativas do teatro e do cinema. Há outras estratégias de comunicação na dança, relacionadas aos campos do sensível, do abstrato.

Demandamos uma educação do sensível, para a qual é fundamental que hajam ações continuadas, como temporadas de espetáculos, mostras, turnês, etc. O que vivemos é que, em muitas cidades, tem um espetáculo de dança e, somente 6 meses ou 1 ano depois, outro...

Alem disso, a dança ainda se vincula a perspectivas muito elitizadas. Aquilo que é legitimado como dança ainda está vinculado à lógica eurocêntrica, que implementa o imaginário da população ao redor do balé clássico. Isso restringe o espaço de outras manifestações de dança, que são colocadas em categorias como tradicionais, como folclóricas, e são menosprezadas.

Demandamos políticas para as artes, que devem urgentemente ser pensadas por nossos governos. Não adiantam ações pontuais, como editais, aprovados por uma ou outra companhia, mas sim políticas para as artes, para a dança. Daí sim conquistaremos mais espaço.


Como foi o processo de adaptação as apresentações de Tríptico Sertanejo deram lugar a uma videodança? O que se “perdeu” ou que se “acrescentou” em relação ao resultado pensado inicialmente?

Em primeiro lugar, precisávamos tornar on-line nosso espetáculo, por causa da pandemia e do distanciamento social ocasionados pelo Coronavírus. No entanto, o espetáculo apresentado no palco se relaciona com o palco do teatro. Não teria o menor sentido apenas jogar essa experiência no youtube e validá-la como obra. Como registro sim, mas como obra, não. Na operação de mudança de plataforma, há perdas. O espetáculo presencial tem sua maneira de ser. De todo modo, já adiantamos que as possibilidades do campo digital nos expandem para outros modos de pensar e fazer. Teremos uma nova experiência, muito poderosa, mas que não pode ser comparada com a mídia do palco, pois tem outra natureza. A videodança ainda está em elaboração. Tem estreia prevista para dia 22 de setembro. Nós da companhia (Mônica Augusto, Flávia Teixeira, Kleber Cândido, Andressa Ribeiro, Diogo de Carvalho, Ivan Bernardelli e Hélio Feitosa) entramos em um novo processo criativo, conduzido lindamente pela diretora Alícia Peres, cineasta e documentarista, editado e finalizado pela Fuzuê Filmes.

 


Edições anteriores
Envie seu evento
Conheça nossos pontos de distribuição
Quem Somos
Entre em contato
Marca da Agenda
Expediente
                       
               Patrocínio Apoio Realização
leirouanet siteagenda    logoitau siteagenda  
logoims siteagenda logoitaucultura siteagenda  
 logogovfederal siteagenda