“A cientista guerreira do facão furioso”: A expansão do universo afrofuturista de Fábio Kabral

Fábio Kabral

 

por Paulo Pastore


Jamila Olabamiji poderia até ser uma jovem comum de 15 anos, com o sonho de ser “a maior engenheira do mundo”, uma namorada complicada e um pai distante por causa do trabalho. Porém, ser filha de Ogum e ter superpoderes, a colocam na mira de monstros, cientistas malucos e do valentão da escola. Esse é um breve resumo do livro: “A cientista guerreira do facão furioso”, escrito por Fábio Kabral, lançado pelo selo da Editora Malê, ampliando o universo afrofuturista do ator iniciado com o “O caçador cibernético da Rua Treze”

Kabral comemora a recepção do público ao seu trabalho, coloca como seu principal objetivo oferecer uma “história bem escrita”. Ele explica que o afrofuturismo é um movimento que visa “recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro através da nossa própria ótica”.  Entre as inspirações, o escritor demonstra buscar fontes diversas que vão dos gibis, passando pelos videogames e RPGs, chegando ao estudo da antropologia e sociologia afro-brasileira e espiritualidades de matriz africana.

A  respeito do mundo nerd, Kabral espera que venham dias melhores no que diz respeito a maior representatividade e maior participação do povo negro na criação de novas obras; destaca iniciativas positivas como o PerifaCon, primeira ComiCon da favela, que contou com autores, criadores e público majoritariamente negro. A obra de Kabral é fortemente influenciada pelos anos de convívio com o mundo nerd.

O que é o afrofuturismo?

É esse movimento de recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro através da nossa própria ótica. É a definição favorita que criei, a qual, para minha surpresa, apareceu no livro do Lázaro Ramos. Para mais definições minhas e de outros, sugiro a leitura do meu último artigo sobre, intitulado: "Afrofuturismo: Ensaios sobre narrativas, definições, mitologia e heroísmo". Esse artigo está na internet e também vai figurar num livro da Unesco dentro em breve.

 

Como dá sua inserção nesse movimento?

Como diz a Ytasha Womack, eu sou afrofuturista antes mesmo de saber que a palavra existia. Há quem diga que as minhas obras de ficção são a própria definição do Afrofuturismo em terras brasileiras. Para mim, independentemente do rótulo, o foco é sempre o mesmo: escrever o próximo livro.

 

Quem é a “A cientista guerreira do facão furioso”?

É uma jovem de 15 anos que se chama Jamila Olabamiji, e apareceu pela primeiro no livro "O caçador cibernético da Rua 13". Foi uma estreia realmente explosiva. Jamila ama seu pai, que está sempre fora porque trabalha em três empregos, e ama sua namorada, uma patricinha encrenqueira que sempre mete Jamila em confusão. Ela é filha de Ogum e herdou do seu pai espiritual um talento inato para criar e desenvolver tecnologia, e por isso objetiva se tornar a maior engenheira do mundo. Porém, seus recém-descobertos superpoderes põem em risco toda a cidade, e ela passa a ser perseguida por cientistas malucos, monstros gigantes e o valentão da escola, que é seu maior inimigo.

 

É uma história que, provavelmente, deve influenciar e ou inspirar reconhecimento por parte de muitas meninas, não? Como você vê isso?

Que seja inspiradora na medida do possível. Minha maior preocupação é que a história seja muito bem escrita.

 

capa inteiraEssa obra é uma continuação do “O caçador cibernético da Rua Treze”?

Essa história se passa antes, durante e após os acontecimentos do livro anterior, no qual o protagonista foi o João Arolê. Agora, a protagonista é a Jamila.

 

Qual a relação dela com outros trabalhos seus?

Esses dois últimos romances e os próximos são e serão todos no mesmo universo. Por enquanto, as histórias estão sendo ambientadas na metrópole Ketu Três, mas logo iremos para outras cidades. Cada livro terá um protagonista diferente. Trata-se de um grande mundo em expansão, uma coleção de séries e histórias sem fim.

 

Esse ano rolou a PerifaCon, a primeira feira nerd’s na periferia, você acompanhou esse movimento?

Vi de longe. Cheguei a ser convidado para falar sobre quadrinhos nacionais, mas meu conhecimento nesse quesito é baixo, então indiquei o Rodrigo Candido, que desenha as capas dos meus livros.

 

Como vê a relação do mundo nerds com a periferia, com questões políticas, principalmente com a questão do negro?

Frequentemente me perguntam sobre periferia, e eu sempre respondo a mesma coisa: não posso falar sobre a periferia, pois não fui criado lá nem tenho essa vivência. Respeito muito a luta diária dos irmãos periféricos e justamente por isso que não falo sobre o que eu nunca vivi. A respeito do mundo nerd, espero que venham dias melhores no que diz respeito a maior representatividade e, principalmente, maior participação do nosso povo na criação de novas obras. Ficção é muito importante, e somos os primeiros a criar e contar histórias e mitos, então precisamos nos reapropriar da arte de criar narrativas ficcionais. Há iniciativas bacanas nesse sentido, como, por exemplo, o PerifaCon, que contou com autores, criadores e público majoritariamente negro. Tudo o que eu escrevo é muito influenciada pelos anos de convívio com o mundo nerd, isso sempre fará parte de mim

 

Quais suas influências e referências?

Gibis, videogames, RPGs, literatura fantástica, ficção científica, animes, literaturas africanas, antropologia e sociologia afro-brasileira, mitologias diversas, candomblé e demais espiritualidades de matriz africana.

 

Conte um pouco da sua trajetória

Escrevo desde moleque. Sempre tive o sonho de ser escritor e publicar o máximo possível de livros. Tudo que fiz e faço na vida é sempre focado nesse objetivo. Tenho um montão de coisas escritas por aí na internet, que as pessoas parecem gostar bastante... porém, meu foco real são os romances, os livros de ficção; esses sim são a minha verdadeira expressão, meu verdadeiro trabalho, minha forma real de me comunicar com o mundo. Aos 8 anos ganhei o primeiro, segundo e terceiro lugar no concurso de poemas da escolinha; aos 16, escrevi meu primeiro livro, que pretendo nunca publicar. Aos 21, comecei a escrever meu primeiro romance, mas só fui publicar anos depois, devido aos percalços da vida. Agora, será um livro atrás do outro. Meu foco sempre é: escrever o próximo livro.

 


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