7ª Mostra Teatro do Gueto: “Por teimosia navegamos contra essa maré de retrocesso político”

naloana Celebrar a força, o potencial da rede de organização das produções culturais na periferia e revelar a arte para além dos estereótipos impostos pelos pela mídia comercial. A 7ª Mostra Mário Pazini de Teatro do Gueto, organizada pelo grupo de teatro Clariô, é, sobretudo, um ato de teimosa e resistência. “Por teimosia navegamos contra essa maré de retrocesso político e artístico na certeza de que outros coletivos também resistentes sobrevivem às margens desse estado temeroso do qual estamos sufocados”, aponta Naloana Lima, atriz fundadora do grupo.

Realizado entre os dias 31 de agosto e 11 de setembro, a 7ª Mostra teve apresentações, debates e oficinas explorando a arte periférica e suas diversas linguagens, mas sempre com o ponto de união.. “Creio que o que nos une seja a luta. A luta de um corpo torturado que insiste em sonhar", sentencia.  A mostra desse ano sauda também o dramaturgo do grupo e professor Will Dama, falecido em 2017.

 

Por quê fazer a 7ª Mostra Mário Pazini de Teatro do Gueto?

Produzir a Mostra Mario Pazini de Teatro do Gueto, em sua sétima edição, é um ato político, histórico, quiçá heroico, pois estamos através da arte, dizendo NÃO à violência poética condicionada pelo poder público atual. Por teimosia navegamos contra essa maré de retrocesso político e artístico na certeza de que outros coletivos, também resistentes, sobrevivem às margens desse estado temeroso do qual estamos sufocados.    

 

Quais eram as expectativas com a Mostra e elas foram alcançadas?

Nossas expectativas eram boas, e foram alcançadas tanto no sentido estético/poético quanto do sentido politico/social. A produção artística periférica vem se fortalecendo em uma rede gerada em relações afetivas construídas sob a ótica dos saraus. Essa rede é feita de gente que procura lugares alternativos onde ela se sinta representada, para além dos estereótipos que a mídia quer nos impor. Essa rede de gente como a gente, muito nos auxilia na articulação dos trabalhos produzidos pelo grupo e esse retorno positivo nos alimenta e nos traz a certeza de que estamos no caminho certo e que é nosso dever persistir na caminhada.    

 

Grupo Clariô é uma referência, tanto estética, como política.  O que o grupo teve que superar para chegar até esse ponto? E quais os principais desafios para continuar existindo?

Creio que se somos referencia é porque acreditamos na arte de um povo que só quer celebrar a vida. E não é a toa que estamos há 12 anos nessa estrada. Superar é sobreviver a cada dia nessa cidade cinza, e não existe uma formula pronta, estamos vivos, negros e vivos, mulheres e vivas, periféricos e vivos. Criando arte na comunidade, fazendo uma politica não exercida pelo poder público, formulando a construção de novos pensamentos estéticos, sociais e políticos. E se nos tiram o nosso espaço à gente cria um novo território, outro terreiro, pois somos seres criativos, criaturas e criadores e sentimos a necessidade da expressar tudo àquilo que nos movimenta.

 

Qual a importância - ou ponto forte - da linguagem teatral como forma de resistência dentro da periferia em comparação a outras formas de discurso?

A diferença marcante que o teatro nos traz, para além da junção de diversas linguagens cênicas, é o próprio encontro físico do artista com o público. É a presença. Acredito que o teatro é uma linguagem que tem o poder de transformar, tanto aquele que apresenta quanto aquele que aprecia, é uma linguagem que baila entre o poder do coletivo e do individuo. O estado de entrega da atriz, do ator, faz com que tudo o que ela/ele toque, ganhe real sentido e força aos olhos de quem contempla. É a arte do impalpável, do subjetivo, do particular, do ancestral, do invisível que nos atravessa para além do físico, resgatando uma lembrança antiga, uma imaginação nos foi roubada, tornando lúdico o que talvez fosse difícil de encarar em uma vida cotidiana árdua. Nesse sentido o teatro talvez seja um potente resgatador de sonhos.

 

É possível dizer que feita nas periferias já superou o “preconceito” de anos atrás? Da perspectiva de ser algo pouco criativo...de baixa qualidade e outras análises negativas ou paternalistas?

Sim, com certeza, e para aqueles que ainda se nutrem com desse discurso pré-concebido de que na periferia só há teatro de má qualidade, peço por gentileza que saiam do conforto de seus apartamentos ou mesmo arejem seus gabinetes mofados com livros de saberes duvidosos, para vivenciarem uma arte tão potente em qualidade que se tem produzido nas quebradas da cidade. Peço encarecidamente que saiam desses teatros brilhantes e vazios e se aqueçam com esse publico novo que movimenta o rolê cultural da quebrada, pois alguns intelectuais, mais ousados, que se aventuraram atravessar essa lógica do avesso aqui sugerida, também se permitiram descobrir uma rara herança Griot alimentada em nossos quintais.  

 

Dentro das várias expressões e linguagens da arte periférica, existe algum denominador, elemento comum da arte feita “PELA periferia, NA periferia e PARA a periferia”?

Creio que o que nos une seja a luta. A luta de um corpo torturado que insiste em se alimentar sonhos e poetizar a vida.

*Créditos da foto de capa: Bruno Favaro
Créditos da foto da matéria: Sheila Signário


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